everyone else rushing round

Ainda não amanheceu. Os termômetros da beira-mar marcam 9ºC e o movimento de carros é mínimo, quase como se a avenida estivesse em seu repouso obrigatório antes de agüentar outro dia e noite com intenso tráfego de veículos sobre seu asfalto castigado. A calçada está quase vazia, há um mendigo em um dos bancos e alguns locais já estão fazendo sua caminhada diária. A baía está lisa e o céu limpo; a escuridão da noite já está cedendo aos primeiros raios de sol. O rádio do carro está particularmente agradável, tocando um repertório repleto de bossa nova, condizente com esse cenário de fim de madrugada. Recém acordado, ainda sinto meus olhos pesados e anseio por um copo de café. Um cheiro característico infla o carro quando abro um pouco a janela, misturado com o vento gelado que bate de leve. Era realmente algo que me agradava, aquele frio, a vista da beira-mar. É estranho observar esses lugares que comumente estão sempre apinhados quando vazios. Silenciosos.
Ao sair do carro, aquele cheiro e vento característicos da baía, agora um pouco acentuados. As pontes se erguem em meus dois lados, com a que simboliza a cidade já com as luzes apagadas. Antes de começar o treino, dois copos de café e uma corrida pela cabeceira da ponte, duas vezes, ida e volta. Os pescadores já ali estão arrumando seus equipamentos, concentrados, passamos despercebidos por eles. Os outros meninos aparentam sono, como eu, mas dividem algumas piadas enquanto reparo no grafite que preenche quase inteiramente as laterais dali. Na última volta, apostamos uma corrida - terceiro lugar, não tão ruim. Chegamos, finalmente, hora de ir pra água. Vamos em quatro, enquanto o treinador está me alertando para que use mais a academia do clube - não é exatamente minha parte preferida de lá. Primeiro pé na água - terrivelmente gelada, e o lodo em nada ajuda, ou o aroma. Vou sozinho, enquanto os outros irão em dois e mais outros dois sozinhos também. O single skiff amarelo está em boas condições, mas não os remos... não que fosse de tamanha importância também. Sento no barco, ajusto o carrinho e os remos. Tudo pronto - ah, com um aviso extra do treinador para não irmos em direção sul porque se não acabaríamos surfando. Passo por baixo da ponte, chego na beira-mar com sua cortina de prédios, que logo estariam refletindo a luz do sol. A água está realmente excelente - quase nenhuma ondulação. Os remos fluem por ela com facilidade, o skiff sem o menor problema. Mesmo sem fones de ouvido, uma música está ecoando na minha cabeça, quase como uma trilha sonora para aquilo. O céu está tingido parte por um rosa, parte por um azul quase escuro. Acelero um pouco, já que fiquei atrás por conta de tanta observação. Não é difícil aumentar a velocidade dado a tranqüilidade das águas. Já há muito mais carros nas ruas, muito mais pessoas caminhando. Poderia fazer aquilo durante toda a manhã, mas ainda tenho aula. Depois de meia hora, paro e observo por um momento. Os barcos, as gaivotas, pra que tanta pressa quando isso implica tão pouca observação?
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Mesmo não praticando a quase dois anos, pretendo voltar ainda ao remo, e estou morrendo de saudades de toda essa rotina.

Citação: Nada Surf - Blonde on Blonde

1 observações:

Anônimo disse...

nossa, tu escreve perfeitamente bem, adoro ler teus textos, consigo me ver no cenário das tuas histórias, beijo, bá.