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O ciclo não se faz de um
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Eduardo Peixoto
on quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Olhando para trás, nesses últimos dias de sentimentos mistos – ainda que pouco conflitantes, já que há uma certeza no fim que se procura e no qual se deposita o esforço e energias – e de uma nostalgia não pronunciada, mas tão inerente ao fim de um ciclo que por si só não representa de modo algum um circulo fechado que se encerra, mas um ciclo no sentido de um período de intensa transformação que nos moldou em direção a uma busca comum, ainda que sem percebermos de que estávamos começando a trilhar caminhos, seguidos por vontades e ideais – que, com alguma sorte, nos pertence, adaptados a nossas ânsias do conhecimento e experiência dos experimentados que nos cercam. Dias que vão passando em frenética e imbatível velocidade, porém velocidade essa que não suplanta o cansaço, que maximiza estes findos momentos deste ciclo – para o bem e para o mal. Olho para trás com um sorriso fechado, cerrado em incerteza, mas pronto para expandir-se.
Agora torna-se clara toda a sorte de estar cercado por indivíduos de minha idade cujo conteúdo não é limitado pela preguiça e mediocridade do senso comum, e cuja eventual falta deste não se apresenta como limitação ou entrega ao fácil e fétido, mas sim uma motivação na procura e no crescer. É num contexto de inteligência que desenvolvi meu intelecto, aliado a uma curiosidade que não classifico de sorte nem algo do gênero – resisto em acreditar no desenvolvimento de intelectos próprio como algo intrínseco apenas a mim, já que considero ser intrínseco a mente humana por si só. Talvez sorte por quem encontrei, por quem convivi, por quem me envolvi, envolveu-me e com quem me relacionei, e por àqueles que pertencem a família na qual nasci.
O sentimento misto é fruto do estresse, reconheço, e a tristeza que reside escondida sob animação – por sua vez escondida pela própria urgência que não é medo de não conseguir em si, quem sabe apenas a pólvora do gatilho do amadurecimento, cujo início ainda traz certa apreensão de não chegar lá, de ficar parado em uma estação insignificante, enquanto o trem para a capital partiu sem você. Essa tristeza é de abandonar justamente estes que foram de importância elementar para todo este processo que você está completando, pronto para se jogar em outros que potencialmente materializarão seus sonhos e aspirações. A tristeza constitui-se de camada fina, rompida ao você recordar especialmente dos momentos bons que passou ao lado destes – ou seja, ao perceber que na verdade a saudade só existe por que você aproveitou os momentos com devida intensidade, que superou os toscos impasses por boas risadas à beira da lagoa ou do mar, que tem histórias ao lado das mais diversas, incríveis e – como seria diferente..? – estranhas pessoas em um momento que era justamente desta diversidade que você necessitava, para desenvolver-se em alguém capaz de assimilar um planeta tão extenso e diferente, cujas paisagens, ideias e diferenças coexistem não como dificuldade ou instrumento de discórdia, mas como um agente de interminável mudança e transformações.
E quando mundo para se explorar. Quantas pessoas e lugares por conhecer... E me resta a certeza de que irei levar estes que me acompanharam no ciclo que se encaminha para uma conclusão, que vou levar todas essas explosivas, recalcadas, absurdas, cheias de vida, de ideais irreversíveis e irrecuperáveis, os imaturos que hoje trabalham ou estudam calados e prendem seu interior para recuperá-lo de maneira que caminhem como indivíduos que devem ser. E só por constituírem-se como tais, já carregarei a felicidade desta certeza, de ter uma formação calcada nesta convivência.
sub city
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Eduardo Peixoto
on segunda-feira, 31 de outubro de 2011
In the limited width of the sidewalk, she was nearly falling down, dragging herself from one gutter to the other. As she tried to gain pace throughout the embedded with pessimism and with begging-to-be-pitied fuckers, she took a glance at the resisting shapes that marked the limits between one tile to the other, on the sidewalk.
She was wearing a short black dress, now completely wet with the rage of the rain that was hitting her during the last hour, for the least. Now, as the constant presence of the water made her quite unaware of the resisting actions of the clouds above her, something started fevering her. It was something quite child-ish and which made her once bright brown eyes stay closed longer than they used to. The recounting of her childhood, however, wasn’t the main cause of it - it was that rush, that instant shot which felt as a generous shot of cocaine or amphetamines pumping through her thin veins. But it wasn’t anything of such nature - she was in having a overdose of something which was far from being synthetic, even if nurtured by the city and its hymn to the continuous movement.
It wasn’t something light, but she was handling that feeling very well, and it was making her attain some energy to reach the nearest bar, for some coffee and cigarettes. As she enjoyed that pleasantness which fueled her head with some old wonder, she suddenly realized that, even though the let down of all the numbness around her wouldn’t ever go away - not in times like these, for sure - and the stupid assholes wouldn’t ever give her and her kind of ideals nothing worth more than a minute alone with her own self, she felt happy by this force building up rapidly and vastly inside of her.
No, to speak of its speed is to limit it - and she wouldn’t do so, as she knew what that kind of force meant. It wouldn’t leave her - it does not leave one when one allows to enjoy the tools and paths which it provides - but it certainly could not be worthy of the everyday misunderstandings and understatements of the growing darkness around it. It was not being suffocated - was just fluctuating and working as a dense and fundamental reminder of what really could do, if only exploited and accepted.
But, for such to happen, one must learn freedom and self-respect - and they forget to teach that to us at school, she thought, as the drank with strange and sudden tension her coffee, feeling its heat and its bitterness invading her throat, and ordering another one just so she could get used to it, as she was with her clothes gripping in her unprotected skin by the action of the rain.
Citação: Bud Powell - Sub City
a estupidez do altruísmo
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Eduardo Peixoto
on domingo, 30 de outubro de 2011
“My happiness is not the means to any end. It is the end. It is its own goal. It is its own purpose" - Ayn Rand
Viva para os outros e pelos outros, se preferir - afinal, a prerrogativa é sua, a capacidade para tal atrocidade é sua e você só comete para si mesmo. mas não tente interferir no direito intrínseco à minha escolha, e se mantenha longe de qualquer interferência quanto à natureza dos meus atos, se eles não te atingem.
Em primeiro momento, você estará vivendo com o brilho superficial que o prestígio de outros homem lhe confere, mas se encontrará, mais tarde, pagando pelo fardo da escolha de abandonar o conjunto de valores que o indivíduo mantém em seu ínterim, abandonando um direito fundamental conferido ao nascimento, e inseparável do “eu” e da construção do mesmo. Falo de um direito, àquele que nos permite construir, modificar, desenvolver - para o benefício dos próprios, para vermos, edificados de alguma forma, o fruto de nosso trabalho. O direito que permite a felicidade mais real, mais pura, mais limpa de qualquer ruído externo - simplesmente porque pertence a apenas um ser, e isso é impossível de se ferir ou romper de qualquer maneira.
Escolha esse caminho, caso queira. Não me importa, não me interessa, não me atinge. Me frustra perceber coisas com as quais não concordo serem defendidas por uma maioria, me assusta perceber tangível nas massas todos aqueles ideais que desprezo e que mantêm um sistema improdutivo e desrespeitoso, destruidor no que se refere à capacidade de cada ser. É frustrante. Faço meus pensamentos e meus ideais - àqueles os quais nenhuma multidão, não importando seu tamanho, pode sequer questionar - se transcreverem em opções. E, caminhando com esse conhecimento de causa e efeito, de poder individual, caminhando livre, o ar fica menos denso, os cenários se cristalizam e se sucedem de maneira mais sucinta e racional, mesmo que infestados de uma irracionalidade que premia o terror, que valoriza o podre e improdutivo, que repudia a busca pela felicidade em detrimento do conforto da piedade...
unorthodox
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Eduardo Peixoto
on quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Eu os via sobre uma visão mais clara, a cada gole. O café tinha gosto requentado porém era forte, e, amargo, funcionava como um excelente aditivo ao primeiro cigarro, naquela manhã preguiçosa e agradável. A chuva caia sem pressa, e prendia o frio deixando o vento mais gélido. Poderia dividir uma cerveja naquele exato momento com qualquer um daqueles que nas calçadas dormiram, que delas despertavam, ao primeiro raio de luz, que chegavam encharcados e com olhos perdidos e continuamente flagelados pela vida na rua. Talvez a familiaridade e certo aconchego que emitiam provinham da quantidade redobrada que necessitavam para as noites invernais. Trabalhadores chegavam também, mais rígidos porém paternais, e chegavam com seus olhos vermelhos e cansados, prontos para algumas doses antes de encarar o ritmo das construções ou da segurança privada. Um afirmava, em ode à vida boêmia, como sua mulher não o deixava mais beber durante o dia, o que logo justificava suas escapadas diárias aos botecos. Alguns assentiram com a cabeça, outros me espiavam - era, sem sombra de dúvida, o freqüentador de menor idade dali, e, de qualquer forma, naquele lugar pouco me aventurava para além da cafeína e da nicotina. Meu início de dia, porém, era compartilhado ali, com aquelas vagas idéias, com aqueles acomodados à suas próprias feridas, com aqueles cujas mentes me soavam muito mais interessantes do que aqueles que corriam para métodos ortodoxos ao primeiro menor que seja tropeço.
Aos poucos iniciava conversas, aos poucos não ganhava mais os olhares de surpresa com minha estada ali. Aquelas linhas de vivência que eles expunham com clareza por seus rostos castigados, pela quantidade de cachaça nos copos plásticos.
if I could be anything in the world that flew
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Eduardo Peixoto
on quinta-feira, 28 de julho de 2011
A liberdade que o vento me entregava eu retribuía me apegando completamente a ele, e ali acompanhando com meu distante olhar as gaivotas que voavam sobre a baía. Que atravessavam as amenas luzes do sol de fim de tarde. Poderia ficar ali, pousando distante, me desprovendo de tudo aquilo que insistia em me sobrecarregar com. A existência me deixava imerso em surpresa, em admiração. O barulho do trânsito e a densidade da cortina de prédios à beira-mar não me perturbavam, muito menos a profundidade e a emergência da respiração que a imensidão do mar e seus significados - era tudo tão incrível, e eu me via em perfeita harmonia, reprimindo qualquer preocupação que representava muito pouco em relação à tudo aquilo, como sempre representa, o difícil é lembrar durante uma extenuante rotina.
Ainda que a coexistência urbano-litorânea me fosse extremamente pacífica e benéfica, em retrospecto oscilava, estando à procura de silêncio, mas me apaixono no meio tempo pelo barulho, e a luminosidade que trazia consigo. O refúgio me parecia ao mesmo tempo agradável mas a estabilidade expunha minha covardia, ao passo que as vias do movimento estavam mais escassas e finas, superficiais. Não pretendia decidir em nada, apenas coexistir em algum ponto entre essas duas definições - entretanto minha tendência não é o meio, e sim os extremos.
Meus olhos continuavam a seguir as gaivotas, e meu pensamento flutuava, e a nostalgia criava sua atmosfera porém ela não me sufocava, apenas integrava a memória - não naquele momento, claro. Minhas concepções clareavam e o simplismo substituía reações pesadas. Agora, estava seguindo o barco, até que observei que as nuvens formavam algo próximo de uma onda, agora com o sol já quase inteiramente coberto por elas, e o céu entrava no período transitório para a noite.
Citação: Lou Reed - Andy's Chest
tempos difíceis
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Eduardo Peixoto
on quarta-feira, 20 de julho de 2011
Um dos sentimentos mais tangíveis que existem é a indignação – ou seja, a revolta contra algo que sua moral, seus ideais ou qualquer outro fator de influência julgam como errado. Leva aos chamados crimes de ódio, assim como a revoluções pró-liberdade ou mesmo à mudanças pessoais drásticas. Me levou, em diversos almoços, à quase quebrar a televisão, e chutá-la imaginando sua estrutura de plástico como sendo a cabeça de algum jornalista estúpido – algum dos diversos que ocupam os informativos do horário do 12h em qualquer emissora aberta, e que brigam para conquistar o primeiro posto no quesito sensacionalismo (i.e. jornalismo de brincadeira, direcionado as massas, que trabalha com choques para entreter). Os estágios de raiva por indignação que quase me levaram a tal ato espontâneo coincidiram com a duração do telejornal, aumentando com cada risada que as irritantes âncoras dividiam, com cada reportagem mostrando mais um corpo encontrado nas margens de um rio da periferia (e olha que não são poucos), em palavra pronunciada no pequeno léxico que parecem formar os jornalistas que trabalham em tais canais, e culminando em alguma matéria absurdamente importante e relevante – adverte-se pesado uso de sarcasmo na sentença – sobre alguma dieta supostamente importada de celebridades norte-americanas.
E o pior: na briga dos sensacionalistas por audiência, quem conseguir melhor alienar o público com seqüências que alternam entre o mortuário do Instituto Médico Legal, algum comentário de um membro da população “revoltado” (e aparentemente todos exibidos nas reportagens apresentam algum quadro de obstrução mental/incapacidade de raciocínio) e finalmente um “tele-alucinógeno” para as donas de casa sonharem com uma vida “de artista”, quem conseguir melhor apresentar esses quadros, ganha a disputa dos índices de audiência. É a mídia da estupidez, e, sem muita surpresa, é a mídia dominante, e digo sem surpresa porque é só observar os níveis de escolaridade ou o numero de leitores e traçar um paralelo.
Enquanto os estúpidos na frente das câmeras fazem a população, indefesa, oca, absorver ainda mais lixo midiático, o que realmente importa fica de lado, quem sabe recebe um espaço de alguns segundos como nada que valha muito a pena – ou angarie muitos espectadores sedentos por sangue e por satisfazer seus mais íntimos desejos sádicos. Um exemplo que deliciosamente evidencia isso é a deflagração das greves na educação que revelam a real falha que é a educação no nosso país. Em casa, pais se retorcem pelo mesmo sentimento que lhes falei no início desse texto – indignação. Seus filhos agora passam os dias inteiros em casa, ao invés de na escola, devido à greve no magistério. Governo, coloque os professores de volta à ativa, ‘meus filhos não tem para onde ir nas manhãs, ficam em casa!’. Governo que esses pais colocaram no poder, por votação democrática, depois de muito pesquisarem e depois de receberem informações por meio de um jornalismo responsável que faz de nosso país... percebem? No fim, tudo acaba influenciando. Estupidez leva à ignorância, que é a estupidez em si. E os pais, reclamando por um lugar para colocar seus filhos, um depósito, de qualquer forma que esse depósito seja, de qualquer grau de produção. Indignação pela qualidade tão ruim que chega a ser (no meu ponto de vista, claro) anos-luz mais chocante do que uma pilha de corpos em uma praça em qualquer periferia. Na interessantíssima matéria sobre tal assunto que apareceu no telejornal, lá estavam os alunos, indo para a escola e encontrando salas sem professores. Os corredores da escola, vazios, sem vida, em tons de azul apagado e formação aparente de rachaduras nas colunas igualmente pintadas de ‘azul-morto’. É para reforçar minha falta de esperança? No telejornal, no segmento que está sendo anunciado, de modo teatral, aparecem um grupo de moradores revoltados querendo asfalto. Ruas, asfaltadas, claro, para passearem com seus carros recém-comprados que lhe deixarão endividados por um período de aproximadamente 80 meses. Ah, espera, é o tal sonho da classe media...
Enfim, meu argumento não é em torno da nossa irresponsável economia domestica, e sim centrado em pura e simples ignorância popular. Eu me sinto aliviado por ter desenvolvido um discernimento ao menos suficiente para escapar da armadilha dessa epidemia (presente em todas as camadas sociais, reafirmo). Esse texto foi feito motivado não só pela absoluta má qualidade do jornalismo das massas do meu estado, mas também por pura admiração pela diversidade que encontramos ao nosso redor – os diferentes rostos, diferentes estilos, opiniões, modos de pensar. E a tristeza que ecoa do sufoco que a ignorância causa, abafando qualquer via de desenvolvimento mental que deveríamos buscar, constantemente, incessantemente.
Citação: título de livro do Charles Dickens, Hard Times.
não consigo achar minha mente
E aquela velha história das escolhas.
Você as faz, pensando nelas ou não. As vezes faz com um bom planejamento, avaliando os lados de cada caminho que pode tomar. Na maioria das vezes, porém, só escorrega em algum lugar e acaba em um mesmo - ainda que resultado de uma série de ações, corrigindo, escolhas de ações.
O que te leva a essas escolhas é produto de outra escolha - uma escolha psicológica, que não pode ser definida em uma ou outra, e sim um estado de espírito que você decide por se aprofundar e tal estado se torna o viés de uma série de medidas que você toma para perpetuação desse contrato mental que você fez com si mesmo.
Ideológico ou não, fiel a si mesmo ou costumeiro traidor, estúpido seguidor ou independente conhecedor, é só um padrão - temos que seguir um, sempre, é o comum. Não tem essa de espontaneidade, no sentido de que sempre seguimos algum instinto que, como animais racionais, não é apenas pueril e "animal" - quase uma infelicidade de se pensar quando todos parecem agir com o lado mais estúpido da mente racional (que é a capacidade de ignorar).
Em qualquer ramo seguido, há constante perigo de evitar o que é atípico ao padrão firmado, quer dizer, não é exatamente um perigo, é uma certeza - se é um padrão, não é mesmo?.. é por ele que seguimos.
O perigo não é nem qual padrão psicológico lhe torna mais agradável/confortável para escolha, e sim de como tal se adapta.
Pode ser muito exclusivo, fechá-lo, matar oportunidades à revelia da acomodação; ou o próprio padrão pode ser de procura, de inconstância.
--
O que poderia eu escrever sobre em tempos de psicologia barata e quando a pretensão é abraçada com força pelos adolescentes irritantes (e intelectualmente tão vazios quanto um jogador de futebol comum) do hoje?
Citação: The Cramps - Can't Find my Mind
travessia de outono
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Eduardo Peixoto
on domingo, 15 de maio de 2011
rótulos:
atual,
os outros,
percepção,
relacionamentos
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Estava lendo o que venho escrevendo nessas últimas semanas. E também o que escrevi, ano passado, no ano anterior. O que sentia. O que ando sentindo. É inevitável traçar paralelos entre o amadurecimento e essas mudanças repentinas de humor, tão repentinas que andam se tornando cansativas. Ando sem muito estímulo, desanimado, escapando de situações sociais pelo esforço que tenho que fazer - convenhamos que é muito mais fácil se isolar. Essa semana, porém, marcou uma diferença das anteriores; alguma mudança está chegando. Vai ver é alegria pelo frio que finalmente chegou com alguma força, ou estou ocupando minha mente com leituras agradáveis, ou ando em companhias agradáveis. Parei de me auto-indagar tanto e estou me sentindo mais relaxado.
Achei estímulo em que geralmente acho estímulo; em caminhadas acompanhado apenas de música, em uma boa leitura, em um copo amargo de café preto, em uma manhã cinzenta, em observar meu cachorro quase dormindo em um degrau das escadas. Não que em algum momento isso não tenha me agradado, mas aos poucos estou voltando a parar mais para tais observações, deixando de tantas preocupações mesmo quando nem sei (porque nem tenho) com o que me preocupar. Devo dizer que alguém ao meu lado faz falta, ainda mais quando nunca fiquei sem em mais de três anos. E faz imensa falta - provoca até certos sintomas abstêmios. Porém, olhando do outro lado do prisma, de algum modo isso vem corrigindo todas aquelas linhas de relacionamentos paralelos que se misturavam e se confundiam. Não que eu me incomodasse tanto assim com elas, mas... é, nunca mantive tanta fé nas pessoas assim para depender delas, de qualquer maneira. Para ser mais sincero, gostava delas, profundamente. Assim como gostava das pessoas com quais criava tais laços.
Não quero esperar mais por algo, porque no fim acabo criando expectativas fora de contexto. Quero me focar no que deveria estar me focando nesse ponto, mesmo não conseguindo como idealizo. Me sinto bem e com uma vontade de sair de casa, mas não para me entregar ao movimento desenfreado, e sim para observar, para conversar, conhecer. Para mudar mais uma vez.
"Que quantidade infinita de energia desperdiçamos a nos proteger contra crises que raramente chegam: uma força capaz de mover montanhas; e no entanto talvez seja justamente esse desperdício, essa espera tortuosa por coisas que nunca acontecem, que prepara o caminho e nos permite aceitar com sinistra serenidade a besta que finalmente conseguimos ver" - Truman Capote, Travessia de Verão
dreamer, nothing but a dreamer
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Eduardo Peixoto
on segunda-feira, 18 de abril de 2011
Céu aberto, em uma manhã morna. Uma caminhada, condizente com esse tempo agradável. Ao descer sua rua, ouvindo qualquer música otimista, observou os outros moradores dentro de suas habituais rotinas. Observou a velha senhora que sempre estava ou fumando ou acendendo o cigarro, com seu velho carrinho de compras, trazendo algumas frutas da feira. Viu o homem do frete que já fora publicamente acusado de pedofilia. Viu sua vizinha tentando espiar a casa ao lado, viu os cachorros latindo para o bêbado que fora grande amigo de seu avô alcoólatra. Uma mulher próxima da meia-idade o ultrapassa, com alguma pressa. Sua expressão é de cansaço. Um barulho de ônibus ecoa e ele consegue ouvir qualquer resmungo de raiva que saíra da boca da tal mulher - o som de seu aparelho de música estava relativamente baixo. Em seguida, crianças passam rindo e dividindo uma bala, ele diminui o passo e as observa atentamente, relacionando com algo que ele também viveu e que há tempo passou - para ele e sua juventude, ao menos, parecia muito tempo, mesmo nem sendo tanto assim. Havia algo de mágico em ver crianças rindo e brincando, sendo crianças, sem qualquer malícia ou dúvidas em seus olhos. Outras duas senhoras idosas, discutindo com fervor sobre o novo padre da paróquia, se ele era ou não homossexual - ao menos parecia, segundo a falsa loira da esquerda. A da direita se contentava com olhares sarcásticos. Carros transitavam, a maioria em baixa velocidade - dado o caráter extremamente residencial do lugar -, mas alguns teimavam em fincar seu espírito suburbano com roncos irritantes de motos e carros populares. A mulher com expressão cansada que antes estava próxima à ele agora se encontrava quase na esquina da rua, dando passos largos e decididos - provavelmente decididos a não se deixar atrasar no trabalho. Ainda se ouvia as risadas das crianças, uniformizadas e agora brincando com um cachorro. Alguns adolescentes passaram, em passos irregulares, falando alto e mascando chicletes - a idade desses deveria ser aproximada a dele, e talvez ele até conhecesse de vista, mas não era exatamente integrado socialmente ao lugar onde vivia.
É o incrível de observar, sabe. Tantas pessoas, tantos modos de vida, tantas situações, tantos pensamentos flutuando por aí. Ele estava se perdendo imaginando o que todas aquelas pessoas estavam pensando, como havia sido a noite delas, qual eram suas aflições e conquistas pessoais. É tanta riqueza de detalhes, tanta variedade, é só dar uma rápida olhada, é só parar um pouco e olhar, parece tão fácil, não? E o é, mesmo. Mas poucos o fazem, por algum motivo que soa desconhecido.
Ele caminhou mais um pouco, até um ponto mais alto onde era possível ter uma boa vista da baía. O som já estava consideravelmente mais alto. Tirou seu pequeno caderno de anotações aleatórias e escreveu qualquer coisa que estava sentindo, e começou a concluir um excelente dia que teve ao lado de si próprio... e de todo o resto.
Citação: Supertramp - Dreamer
somehow it has become unmentionable
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Eduardo Peixoto
on domingo, 17 de abril de 2011
Poderia dizer que o que mais valorizo nas pessoas é seu intelecto. Acho que quanto mais aprendo com alguém, mais consigo me aproximar e mais elementar tal pessoa se torna para mim. Não precisa exatamente ter muito conhecimento agregado, ter vontade de agregar conhecimento já é uma qualidade que valorizo bastante.
Até porque isso é necessário para o debate, para a conversa, para ter o que falar com alguém. Acho meus amigos mais próximos pessoas muito inteligentes e não é raro eu me pegar em momentos de admiração por vários deles. Aquela popular sentença que nós nos tornamos parecidos com quem nós andamos acaba que por muitas vezes sendo bastante verdadeira pois, conscientemente ou não, absorvemos estilos, sotaques, expressões corporais, opiniões e idéias (ou a falta dessas duas últimas) de quem nos rodeia. Pode não ser uma afirmação certa em todas as ocasiões, mas com o tempo acabamos nos ajustando ao nosso círculo de relações.
Fico imaginando se não tivesse conhecido algumas pessoas, se não tivesse me envolvido com algumas delas, quem teria vindo no lugar, o que teria ocorrido. Com algumas é até impossível imaginar isso, pelo modo que me atingiram e continuamente me atingem e me alteram. É difícil imaginar. Algumas me tiraram do meu espaço-comum, me levaram a novas coisas e mais novas pessoas, que nunca imaginei conhecer. Com pessoas assim entra ao meu alcance coisas que raramente aprenderia sozinho.
No fim das contas, penso em meus amigos e me sinto feliz de ter conhecido e dividido momentos tão incríveis ao lado de pessoas igualmente incríveis. Mesmo sendo difícil administrar as diferenças, é preciso aprender a conviver com elas - até porque com as diferenças se aprende bastante. E aprender com os melhores.
Citação: New Order - Thieves Like Us
o batalhão de choque está inquieto
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Eduardo Peixoto
on quinta-feira, 17 de março de 2011
Eu começo esse texto sem a mínima idéia do que escrever. Na verdade, estou com esparsas idéias que diferem bastante uma da outra. Mas me sinto com uma vontade imensa de escrever. Os números me assombram na escola e fora dela algumas pessoas me assombram também. Me senti mal durante o dia inteiro e não sei exatamente porque. Tenho idéia, mas não é exatamente apenas um motivo. Estou desmotivado. Cansei um pouco da rotina, das pessoas, do cenário. Preciso retornar as coisas que realmente me relaxam e me deixam bem, mas meu tempo anda mal-administrado. Pode ser exagero de adolescente metido ao drama, mas como nem drama nem exagero são do meu estilo, recuso essa denominação.
Queria um pouco mais de surpresas positivas, de ficar naquele estado de estar curioso por alguém sem muitas preocupações, sem muito movimento, com um ritmo mais lento. Isso é coisa de alguns anos atrás, quando inexperiência era motor do surpreendente. As coisas mudaram, as pessoas mudaram, os hábitos mudaram. Me vejo fazendo coisas que nunca imaginei que sequer iria experimentar atitude próxima. Continuo íntegro à minha personalidade, mas traços novos surgem no meio do aprendizado e de qualquer indício de experiência que tenha ganho nesses últimos tempos. Não julgo ser muita, é quase nada, mas talvez não condizentes com minha idade. Mas estou meio perdido, na minha rotineira confusão. Ainda me sinto em transição, sem fim previsto. Ao mesmo tempo que quero um tempo sozinho quero pessoas novas, não exatamente um relacionamento sério, mas também não um emaranhado de paralelas relações que no final se mostram complicadas demais para se levar adiante, ainda mais quando promiscuidade de funde com amizade. É meio complicado na verdade, porque no fim restam sentimentos mal resolvidos.
Mas é tudo muito rico em possibilidades para ficar se enterrando em melancolia. No tempo limitado que recebemos, não adiante dividir mágoas quando há tanta coisa ainda por aí. Tudo bem que é inevitável às vezes, mas ainda assim... prefiro mascarar do que despejar drama por aí.
Citação: Bob Dylan - Desolation Row
como reagir ao seu lado?
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Eduardo Peixoto
on terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
rótulos:
atual,
fragilidade,
percepção,
relacionamentos
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É uma tese bem aceita pela crença popular que as pessoas nascem com uma predisposição para certa atividade. Alguns, para certo esporte, por exemplo. Outros, por ciências exatas. Alguns por pessoas. Venho recebendo pistas suficientes para me convencer de que a predisposição de lidar com pessoas não é uma das que acompanham, ao menos não naturalmente. É fácil para mim fazer amizades, desenvolver conversas [que com freqüência terminam em discussões pela minha falta de tolerância com opiniões opostas as minhas], até aprofundar relacionamentos interpessoais. Mas existe um certo limite para meus relacionamentos. Não sei reagir a confissões, não sei comentar com naturalidade um sentimento por outro alguém, não sei como responder a algo bonito que me dizem - mesmo sentindo algo parecido. Não sou espontâneo quando o assunto é pessoas. Não me vem como impulso - e, quando quero dizer algo a alguém, treino até já não ser algo que vá dizer com naturalidade, e sim algo ensaiado, beirando a falsidade. Preciso ensaiar meu impulso, deixá-lo fluir. Vai ver não nasci para pessoas, vai ver é solidão [não necessariamente num sentido negativo] o que me conduz e os outros acabam atrapalhando. Ainda assim, me recuso acreditar nisso.
É frustrante dar como resposta a alguém por quem sinto certa afeição uma assentida ou uma leve mudança nos lábios. Talvez a pessoa até perceba, mas falta algo. Eu sei que falta porque, se até para mim falta, imagina para a outra? O que me deixa ainda mais frustrado sobre toda essa situação é que já tentei mudar - superficialmente, mas tentei. Porém as vezes percebo, mesmo com desconfiança, que é um traço basicamente irreparável da minha [quase] gelada personalidade. Me chamam de frio, dissimulado. Frio não sou, dissimulado não completamente. Talvez possa transparecer os dois, principalmente para os mais externamente sensíveis [adendo: eu sou sensível, e muito, internamente], mas acho que se eu conseguisse transportar parte dos meus sentimentos como gestos e palavras ditas, não mencionariam tais conclusivos e errôneos conceitos sobre mim. Em geral não me importo muito com a opinião alheia [na verdade, é raro eu me importar com a opinião de desconhecidos], porém sei que esse tipo de retração me afasta de muitos, e já me afastou de tantos... não é desistência, não é falta de vontade. É só algo que não me é natural. Não peço que todos entendam isso, mas acho que quem me conhece deveria levar em conta. Bom, essa nem era a premissa do texto, de qualquer forma.
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E como deveria funcionar quando eu começo a gostar de alguém? Como eu deveria reagir ao seu lado, se é que há forma correta, como se eu conseguisse arquitetar e planejar algo, prevendo todas as possíveis falhas e acertos [como é de costume próprio] ao ficar olhando para você e curtindo sua risada. Não sei se existe fórmula correta - na verdade, sei que não, e nem vou me estender nesses provérbios românticos ridículos e sem nenhuma noção realista [mesmo sentindo certa vontade] aqui. Até porque estou apenas gostando de você, sem nenhuma carga. Queria ficar mais perto de ti, e, quando estivesse perto, me sentir realmente próximo. Mas, bom, é só o início - e ainda tenho que descobrir como administrar isso com uma amizade.
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Me sinto bem e ao mesmo tempo perdido. Sinto que estou indo pelo caminho certo, mas ainda assim falta algo que agora parece tão inexoravelmente necessário, algo que nunca antes precisei.
a million miles with one step
postado por
Eduardo Peixoto
on segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Minha penúltima escrita aqui retratou uma sensação agradável e ao mesmo tempo confusa que vem acompanhando meu verão, e faço dessa próxima uma segunda parte da mesma. Os últimos dias me mantiveram ocupado com momentos memoráveis e com a afluência de novas pessoas. Pessoas essas com quem nunca imaginaria dividir momentos tão gostosos e divertidos - pessoas das quais há menos de um mês nem sabia da existência. Para alguns talvez isso não pareça tão absurdo ou estranho, mas, para mim, parece. Isso deflagra uma retração emocional há tempos desempenhada com resultados mistos por mim, mas que agora parece ter efeito negativo e não valer a pena como um ideal - ao menos não ao ponto de sacrificar outras coisas.
Me sinto muito bem, como não me sentia há um bom tempo. Estou aproveitando melhor aqueles que me rodeiam. Estou aproveitando melhor o que me rodeia, onde conheci nessas últimas semanas pessoas tão incríveis e que transcreveram positivamente toda essa mudança pela qual venho passando. Está tudo bem, e é assim que deve continuar.
Citação: Robbie Williams - Revolution
o fantasma
postado por
Eduardo Peixoto
on terça-feira, 18 de janeiro de 2011
rótulos:
antigo,
percepção,
relacionamentos
/
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Acho incrível sua capacidade de (re)aparecer no momento em que eu estou mais confiante na balela de que tudo passou e eu já ultrapassei você e sua doentia tentativa de relacionamento. Você vem acreditando piamente que ainda me têm de alguma forma - como um fiel estepe, como se fosse estar sempre ali quando você briga com seu namorado. Você joga em mim os velhos truques que conseguiram me amarrar por certo tempo - na verdade, me amarraram e me machucaram - e com aquela velha conversa que hoje soa tão insuportável e pior, soa tão falsa.
E... quer saber? Não cola mais. Nem é o suficiente para me segurar, por um segundo a mais que seja. Entendi qual é a sua, e não gostei nem um pouco. As vezes me pergunto como consegui gostar de você, com essa paixão que nada mais passa de perversa necessidade de possuir. Você diz que me entende. Que ainda gosta de mim. Sei que o primeiro não é verdade, porque, se você realmente me entendesse, não ia me perder dessa forma tão dissimulada. Se ainda gosta de mim, não me importo mais, porque não quero ter mais nada a ver com você e suas doentias tentativas de ter um relacionamento.
Cansei de você. Não quero mais. E não aceito, em nenhuma circunstância.
texto adolescente de devoção estúpida
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Eduardo Peixoto
on quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
As vezes me deparo com algo que me choca profundamente: o quão extensa é minha futilidade. Mesmo isso sendo uma recorrente característica de minha geração, ainda assim, me vem uma necessidade emergencial de querer alguma elementariedade para minha existência. Sei que a leitura de bons livros vão me afastar disso e sei que, dentre tantos, não sou o mais fútil, mas, ainda assim... os desejos consumistas, as posições mimadas, as atitudes impulsivas. O problema de pensar muito nisso é que é algo que acaba levando a pessoa a virar pretensiosa, o que é algo irritante para os outros ao redor.
Vai ver preciso é voltar à rotina, que me imponham de novo a precariedade do sistema educacional. Ou preciso de mais conversas na praia ou na varanda com meus amigos. Vai ver é por isso que muitos acabam na igreja, mas, ainda assim, acho que religião demais é ignorância e resultado de personalidade fraca e submissa - mas isso já é outro tópico.
Vai ver preciso de um pouco de sono. Ou ouvir mais os conselhos de meus pais. Ou, talvez... me apaixonar, de um modo saudável.
Citação: The Lucksmiths - Adolescent Song of Mindless Devotion
you're so young, so sweet and so surprised
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Eduardo Peixoto
on quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Não sei mais o que pensar porque já não tenho mais o mínimo controle do que se passa pela minha mente. Muitos sentimentos e pensamentos conflituosos vão e voltam por ela; não consigo decidir qual torrente de idéias seguir. Talvez seja muita ambição querer algo concreto sem dúvida ou confusão, porém eu queria isso. Não estou muito confuso, sei do que quero, só não sei se realmente vale a pena querer. No fundo sei que vale, porque é algo real, e sentimentos dessa magnitude - magnitude tal que mudou todo meu panorama pessoal - não deveriam simplesmente ser evitados porque depois muito provavelmente vão machucar um pouco. Evitar aumenta o machucado, não o evita, tive várias provas disso. Até porque é legal ficar pendendo dessa maneira, é interessante explorar as possibilidades e complexidades de nós mesmos. Alguma coisa acontece dentro de mim, chame você de reação química ou princípio de hipertensão, que me faz mudar completamente de humor, numa questão de alguns minutos falando sobre qualquer coisa idiota com você e se deixando levar pela sua estratégia de criança do primário. Não sei o porquê, vai ver é seu aroma, ou sua inquietação, ou esse incipiente modo que não aceita críticas - não que isso me atraia, mas não acho muitos motivos. Mentira, acho muitos motivos, muitos, principalmente quando estou com você. Mas não é possível isso ter acontecido comigo tão rapidamente e... com alguém tão diferente. Quero te conhecer, ficar perto, ter algo real... me esqueceria do controle e do resto de minhas infundadas paranóias em um relacionamento com você, e na verdade nem seria tão difícil.
Não quero aceitar tudo isso porque não sei administrar sentimentos, não sei lidar com eles, não sei aplicá-los na vida real. Nem em palavras sei ao certo porque é difícil admitir certas coisas que deixam meu chão desnivelado. Mas não é possível recusar, talvez nem queira. Estou gostando disso, mas estou em iminência de sofrer uma grande queda caso você insista em continuar na bolha de sua limitada vida pessoal, o que é bem possível. Pode acontecer, pode não acontecer... mas, independente da forma que tomar essa indefinida pseudo relação, nas últimas semanas muito mudou, e continua a mudar. Muito.
for sure, l.
Citação: Interpol - Rest my Chemistry
quase hipocrisia
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Eduardo Peixoto
on sexta-feira, 15 de outubro de 2010
rótulos:
fragilidade,
os outros,
percepção
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Não consigo mais entender muitas coisas, não como eu as fingia entender. Antes tinha em mente que era tudo plano e sem muitos mistérios, que as pessoas fantasiavam e idealizavam tudo demais, não entendia como elas aguentavam tanta ficção. Essa visão unidimensional das coisas está se provando totalmente errada, ao passo de todo o resto. Isso ilustra a percepção de que nunca soube muito bem como lidar com as outras pessoas ao meu redor e seus modos de pensar e agir, e não gosto nem um pouco de sentir grande frustração advinda dessa inabilidade.
Me sinto perdido e confuso, mas talvez me sinta, principalmente, sensível. É, definitivamente; me sinto sensível e propenso à instabilidade. Corroborei minha ideologia pessoal com a vulnerabilidade que me invadiu e [ainda] sinto como se sempre estivesse distante de todos e que nunca vou ter algo real [e que funcione] com alguém. Já me senti assim antes e é difícil transpôr tais sentimentos em ações, primeiro porque há uma barreira imperceptível que me deixa involutariamente retraído e segundo porque as pessoas simplesmente parecem muito complicadoras para um envolvimento. Tal ponto de vista mudou extremamente nos últimos tempos, porém ainda assim não tenho um comportamento condizente com essa mudança. Essa falta de crença na complexibilidade de meus relacionamentos agora se volta contra mim; e não da forma de alguém e sim na forma de pensamentos contraditórios.
Eu estava bem antes, talvez imerso em uma sensação superficial de bem estar, mas... já livre de qualquer peso que adquiri. Porém fui atingido por algo - alguém, dessa vez - inesperadamente, e de um modo inimaginável. Pode ter me tirado desse estado de bem estar porém me fez ver as coisas por um prisma novo e deixou oportunidade para uma mudança de atitude a longo cobrada por algumas pessoas que convivem (ou conviveram) comigo. Não vou - nem quero, de modo algum - mudar minha essência, mas quero ficar próximo das pessoas, e as pessoas com as quais eu tinha verdadeiramente mais proximidade foram afastadas de mim... o que dificulta ainda mais as coisas. Com esses amigos aprendi a, aos poucos, como me aproximar de alguém, e com eles dividi confissões profundas e momentos inesquecíveis. São as coisas pequenas, sabem. Sempre me apoiei um pouco nessas coisas pequenas - um simples toque, o modo que sorriem para mim, o modo como as palavras são ditas. Nunca fui do tipo exagerado - demonstrações grandes de afeto sempre me pareceram muito forçadas.
Depois de um bom tempo recusando a fórmula limitada do compromisso, agora me vejo ansiando por apenas uma pessoa, ao ponto de não conseguir pensar em mais ninguém - no sentido da atração. Estou assustado e instável, quase que inflando uma paranóia sentimental que nunca tive e nunca pensei que teria. Estou bem por isso... pena que implica desestruturar outras coisas que são de suma importância.
segunda azul
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Eduardo Peixoto
on segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Estou em uma aula insuportável (presidiada por um professor homofóbico e racista) sem dormir há 36 horas e parece que tudo está chegando em minha mente de uma vez só. Na verdade, sinto que muito muda após se passar uma noite em claro. Não sei, a percepção geral sobre as pessoas ou coisas difere do normal - talvez em parte por causa da desregulada noção de tempo, que consequentemente retarda todas as outras noções cognitivas; talvez por causa da ressaca. E, além disso, estamos ainda refletindo o resto das reflexões que sempre aparecem e se desenvolvem de modo muito intenso durante as madrugadas - ao menos eu me sinto mais livre para pensar, observar, escrever, conversar... e falo isso sem nenhum proselitismo hippie ou algo do gênero. E na madrugada é também geralmente frio, o que só faz das coisas ainda melhores para o meu lado, que sou confesso amante de baixas temperaturas.
Lembro de hoje pela madrugada deitar na calçada e observar as estrelas (sob um céu sem nuvens, ou seja, estrelado) ao lado de uma nova - porém já incrivelmente próxima - amiga. Discutimos essa coisa do culto à natureza e argumentamos que não há sentido em tanto estresse e reclamações com vistas como essa que eu e minha amiga estávamos tendo; ou quando se pensa na sobreposição de nosso minúsculo tamanho em galáxias de oportunidades. Não que isso seja algo determinante para achar a raíz da solução de cada problema nosso, mas quando mais você percebe que descobertas não são delimitadas... menos você se importa com a solução de problemas, e sim com a criação de novas perguntas - veja bem, perguntas.
escrito dentro de uma sala de aula,
em uma ensolarada segunda-feira, de céu azul e aberto.
Citação: New Order - Blue Monday
o eu irreconhecível
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Eduardo Peixoto
on segunda-feira, 4 de outubro de 2010
rótulos:
atual,
fragilidade,
os outros,
percepção,
relacionamentos
/
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Eu não estou reconhecendo o jeito que venho agindo e o modo que venho pensando nas últimas semanas. É como se houvesse sofrido uma blindagem emocional ao contrário, porque tudo parece estar girando em torno de uma coisa... que pode ser o preceito de um sentimento ou realmente algo real, se bem que isso não importa muito, o que importa é o fato de eu estar absurdamente bobo por alguém. Eu já fiquei assim antes, mas nunca me submeti a tal nível de exposição pessoal - estou muito incomodado porque é a primeira vez que eu gosto de alguém e demonstro isso abertamente. Particularmente não gosto de aparentar fraco e indefeso aos outros, ou até mesmo sentimental, porém está sendo, por algum motivo desconhecido de minha parte, inevitável. Sinto como se eu próprio houvesse ultrapassado o limitrofe dessa exposição, e definitivamente não gosto disso. Mas não há como voltar atrás, e nem sei se, caso fosse possível voltar, mudaria muita coisa. Na verdade é que estou gostando bastante de tudo isso, porque parece autêntico e é preciso mais do que algumas palavras - nunca disse que iria ser fácil com você; você infantil, inexperiente e retraído pessoalmente. Hoje confirmei o que suspeitava, e estou em estado de êxtase interno - contido, claro.
Também sinto que estou em um divisor de águas pessoal. Estou ao ponto de trocar coisas já antigas e seguras na qual sempre manti como meu apoio (não como um estepe; não sou desse tipo) e pelas quais sempre mantive um pé atrás em relacionamentos sérios por alguém instável e bastante diferente de mim. Não estou me entendendo - sempre fui racional e pé no chão, parece que estou abandonando todos meus ideais, ou ao menos um estilo de vida. Me afastei dessas pessoas e só sinto vontade de conversar com eles atualmente, e isso seria algo inimaginável para mim há pouco tempo atrás. Mudança é bom; aceitar riscos de vez em quando é bom. Estou corroborando meu ponto de vista e trocando minha rotina por alguém; minha independência está sofrendo um forte baque e às vezes sinto como se minhas passadas frustrações amorosas estão sendo colocadas em jogo ou mesmo transpostas agora como forma de compensar os erros passados. Não me arrependo de muitas coisas, e mesmo que tivesse apostado as fichas em algum romance no passado, sinto que não teria crescido tanto como cresci mentalmente. Hoje, porém, é um momento diferente e me sinto pronto para encarar algo mais sério - talvez essa coisa de 'quando você encontrar alguém certo vai saber' é pura ladainha, porque a verdade é que às vezes temos que pular de cabeça e abandonar qualquer que seja nossa tradição pessoal.
A verdade é que mudar é importante e estou bem por estar mudando. Mas ainda sim tento me controlar, não quero ser levado pela correnteza de alguém que não seja eu mesmo - não é do meu feitio. E, apesar de estar um pouco irreconhecível para mim mesmo, talvez eu esteja me descobrindo mais - descobrindo novas façanhas internas, novos sentimentos, novas possibilidades. E nunca me senti tão pronto para isso como agora.
a recusa
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Eduardo Peixoto
on sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Você pode se recusar à pensar; você pode se recusar à se envolver; você pode se recusar à refletir. É a questão do livre arbítrio, da liberdade de ser ignorante mentalmente, de sucumbir ao comodismo tentador que permeia todas as atividades de um mundo onde criatividade é reprimida e cultura abandonada desde o ensino pré-escolar em favor do trabalho mecânico e repetitivo. Você pode escolher viver uma vida patética onde tudo se encaixa em uma casa no subúrbio, filhos, algumas idas à praia e a morte. Ao escolher isso, aceita-se uma imediata e corrisiva limitação não natural de um gigantesco planeta que nos faz parecer um grão de arroz no meio de um grande campo de centeio. É a recusa de explorar, de experimentar, de vivenciar. É aceitar limitar uma vida já limitada em um intervalo rápido de tempo ao tedioso e inanimado. É viver morrendo.
E há consequências. Pense nas estatísticas extrapolantes de separações, suícidios ou uso de drogas - ou até mesmo de adeptos das igrejas pentecostais, que sugam a mente [e o dinheiro] do povo mais desfavorecido intelecutalmente por uma pesada manipulação, e o que também é feito pela televisão etc. As pessoas cansam da recusa - porque a recusa faz mal, porque vai contra nossos princípios herdados relacionados à ânsia irrecusável que o humano possui. Uma hora ou outra, no fino trecho dessa patética vida que os que recusam trilham, você para, finalmente, para pensar. E, ao fazer isso, surgem diversos novos caminhos que atiçam sua curiosidade e ativam seu paladar a longo perdido. Não se deixe cair na armadilha da recusa; ela trás graves consequências - consequências essas que após algum tempo, gasto na recusa, não tem como se voltar atrás, porque o tempo trabalha em nossa oposição. Como ouvi em algum lugar; você pode bater sua cabeça na parede, mas não pode evitar a dor que isso vai proporcionar. Você pode recusar o que lhê é natural, mas não pode evitar se sentir inútil e preso em uma vida sem sentido ou paixão.
É um tortuoso caminho que envolve diversos perigos e obstáculos, diferentemente do caminho da recusa que é uniforme porém também cheio de percalços. Eu estou na metade de minha adolescência e estou sendo chocado com a iminência de responsabilidades, de sair de casa, de escolher um representante pro meu país. Estou sendo chocado com a iminência de escolher qual caminho seguir - e o choque é grave, pois sei que as escolhas que faço nessa faixa etária vão refletir no resto de minha vida. Eu não sei de muita coisa, não possuo muito conhecimento - comparado aos mestres que cada vez mais eu valorizo, mestres literários, musicais ou até professores - mas sei que não quero seguir por um caminho pré-determinado e já atravessado por tantos infelizes que morreram sem levar muita vivência. E viver é exatamente o que eu mais quero.
