Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens

anti-hedonistas (de merda)

A velha senhora entregou outro olhar, cansado, abatido, e deixou que seus dedos tocassem as margens da água daquela enegrecida e poluída lagoa. O menino continuou parado, esperando qualquer palavra dela, que lhe olhava tão atentamente pelos últimos minutos. Ela se encontrava na iminência de lhe falar algo, com o peso de uma voz que já atravessara anos e anos, e a densidade daquele intervalo preenchia o ar que resistia, gélido, primaveril, nostálgico.
Finalmente, então, ela lhe dirigiu as palavras.
“Você, menino, do alto de sua juventude, pode me explicar porque tudo está tão insuportável..?” Ela diz, e ele olha, sem entender a pergunta, com curiosidade. “Porque tudo está tão chato, tão sem sentido, tão plano... você deveria saber, está crescendo no meio de tudo isso” ela continua, olhando para um ponto fixo na lagoa porém sem estar realmente observando nada.
“Como..? Me desculpe, não entendi” é a resposta que ele entrega a ela, algo que a senhora recebe sem surpresa, como se já esperasse aquela falha de comunicação, uma que não era exatamente referente ao abismo de idade entre ambos, e sim uma ruptura cultural.
“Sim... quero dizer, vocês estão no meio de tanta possibilidade, com seus computadores, com tanto movimento, e parecem cada vez mais parados... é tanta coisa nova querendo proibir a geração que está por vir, a sua, digo, são tantos artifícios querendo impedir vocês de se divertirem ou dizerem o que pensam e vocês simplesmente recebem isso de braços abertos, ao mesmo tempo em que tem tanto poder e tantas ferramentas...” diz ela, confusa, rapidamente, inicialmente parando apenas para respirar - mas, ao notar a confusão nos olhos do menino ao seu lado, volta atrás. “Não entende ainda, menino?” ela pergunta, outra vez, numa voz ríspida, irritada, porém pouco surpreendida.

A lagoa continuava linda, ela pensava. Os que passavam correndo, em suas roupas de esporte, ou com seus cachorros, ou os jovens com aquelas câmeras sofisticadas que para pouco serviam... onde estavam os risos reais, os grupos, as latas de cerveja, os maços de cigarro?
E o menino, que já caminhava de volta para qualquer outro lugar, cujo andar pausado revelava uma confusão advinda das palavras que absorvera daquela velha senhora, ó, que pena desse que vai ter que enfrentar uma época tão... chata, monótona.

sub city

In the limited width of the sidewalk, she was nearly falling down, dragging herself from one gutter to the other. As she tried to gain pace throughout the embedded with pessimism and with begging-to-be-pitied fuckers, she took a glance at the resisting shapes that marked the limits between one tile to the other, on the sidewalk.
She was wearing a short black dress, now completely wet with the rage of the rain that was hitting her during the last hour, for the least. Now, as the constant presence of the water made her quite unaware of the resisting actions of the clouds above her, something started fevering her. It was something quite child-ish and which made her once bright brown eyes stay closed longer than they used to. The recounting of her childhood, however, wasn’t the main cause of it - it was that rush, that instant shot which felt as a generous shot of cocaine or amphetamines pumping through her thin veins. But it wasn’t anything of such nature - she was in having a overdose of something which was far from being synthetic, even if nurtured by the city and its hymn to the continuous movement.
It wasn’t something light, but she was handling that feeling very well, and it was making her attain some energy to reach the nearest bar, for some coffee and cigarettes. As she enjoyed that pleasantness which fueled her head with some old wonder, she suddenly realized that, even though the let down of all the numbness around her wouldn’t ever go away - not in times like these, for sure - and the stupid assholes wouldn’t ever give her and her kind of ideals nothing worth more than a minute alone with her own self, she felt happy by this force building up rapidly and vastly inside of her.
No, to speak of its speed is to limit it - and she wouldn’t do so, as she knew what that kind of force meant. It wouldn’t leave her - it does not leave one when one allows to enjoy the tools and paths which it provides - but it certainly could not be worthy of the everyday misunderstandings and understatements of the growing darkness around it. It was not being suffocated - was just fluctuating and working as a dense and fundamental reminder of what really could do, if only exploited and accepted.
But, for such to happen, one must learn freedom and self-respect - and they forget to teach that to us at school, she thought, as the drank with strange and sudden tension her coffee, feeling its heat and its bitterness invading her throat, and ordering another one just so she could get used to it, as she was with her clothes gripping in her unprotected skin by the action of the rain.

Citação: Bud Powell - Sub City

moment’s notice

A lânguida sombra que fazia frente a diminuta fresta de luz que penetrava pela janela era, de seu modo, animadora. Ele poderia encarar aquela sombra, poderia deixar sua atenção repousar por horas naquela forma escura, até ela se revelar em luz, até se revelar em uma linda forma de um corpo.
O vento soprava cada vez mais longe o resquício de frio, e as expectativas se amontoavam, culminando no sentimento que construía por aquele ser, que a sua frente se levantava para tomar algo, que caminhava pelos corredores daquele modo característico, desajeitado. Em seus olhos transcrevia-se, cada vez mais, uma anciente tristeza, uma deficiência de afeto que, só pelo segunda atenção se percebia, e uma deficiência que prostrava uma de difícil transposição barreira, uma barricada sentimental. Os olhos, porém, reluziam quando excitados, e com força. O corpo, dado aos trejeitos mais detalhistas entretanto de certa forma jogado e desprendido, estava perdendo sua variedade de movimentos com uma tendência ao isolamento pessoal.
E, aquela fase melancólica em que a sombra escurecia mais um pouco, aquela sombra revelaria-se ainda mais impressionante ao encarar a pura luz, e ele queria ser o agente determinante de tal transição.
Citação: John Coltrane - Moment’s Notice

unorthodox

Eu os via sobre uma visão mais clara, a cada gole. O café tinha gosto requentado porém era forte, e, amargo, funcionava como um excelente aditivo ao primeiro cigarro, naquela manhã preguiçosa e agradável. A chuva caia sem pressa, e prendia o frio deixando o vento mais gélido. Poderia dividir uma cerveja naquele exato momento com qualquer um daqueles que nas calçadas dormiram, que delas despertavam, ao primeiro raio de luz, que chegavam encharcados e com olhos perdidos e continuamente flagelados pela vida na rua. Talvez a familiaridade e certo aconchego que emitiam provinham da quantidade redobrada que necessitavam para as noites invernais. Trabalhadores chegavam também, mais rígidos porém paternais, e chegavam com seus olhos vermelhos e cansados, prontos para algumas doses antes de encarar o ritmo das construções ou da segurança privada. Um afirmava, em ode à vida boêmia, como sua mulher não o deixava mais beber durante o dia, o que logo justificava suas escapadas diárias aos botecos. Alguns assentiram com a cabeça, outros me espiavam - era, sem sombra de dúvida, o freqüentador de menor idade dali, e, de qualquer forma, naquele lugar pouco me aventurava para além da cafeína e da nicotina. Meu início de dia, porém, era compartilhado ali, com aquelas vagas idéias, com aqueles acomodados à suas próprias feridas, com aqueles cujas mentes me soavam muito mais interessantes do que aqueles que corriam para métodos ortodoxos ao primeiro menor que seja tropeço.
Aos poucos iniciava conversas, aos poucos não ganhava mais os olhares de surpresa com minha estada ali. Aquelas linhas de vivência que eles expunham com clareza por seus rostos castigados, pela quantidade de cachaça nos copos plásticos.

young and pure

Poderia ser o vento que cortava e derrubava as sensações térmicas, ou poderia ser o vinho branco, mas aquela onda de nostalgia, aquele choque de saudade que não era em nada específica, era tão perdida quanto os dois se sentiam. A inexatidão e incerteza daquilo, a urgência adolescente e a vontade de se deixar ir, carregado com qualquer que venha a ser a próxima corrente. A nostalgia se apresentava mais por possibilidades e não por uma tangível saudade do que há tempo se fora, e não era triste, apenas preenchia o ar agradavelmente como um tipo de música imaginária.
O sentimento era incerto também, prematuro, entretanto ele sentia que tal sentimento tinha um potencial totalmente inexplorado e um fundo mais sedento do que puramente insatisfeito. Não era uma corrida, a urgência era simplesmente superficial e ficar ao lado, dividindo olhares perdidos, lhe parecia muito mais importante e agradável do que qualquer outra coisa, ambos tortos por uma leve ação do álcool em seus corpos.
As palavras fluíam na hesitação, na dúvida da amizade apaixonada, e a garota ao seu lado tentava redirecionar a atenção para a beleza daquela noite, daquela cidade, daquelas luzes. As ondas de movimento que os carros incitavam os convidava para uma caminhada, e à beira-mar eles comentavam, sem nenhum foco aparente, sobre seus arredores. A conversa fluía e as pausas demonstravam uma mútua hesitação em abrir uma brecha para revelaram a atração que sentiam um pelo outro.
Uma segunda onda de nostalgia iria resvalar outra vez, e outra vez eles se encontrariam perdidos em uma imensidão, procurando os limites da baía com um fundo nublado, e novamente não se importariam. Estavam ali, um, o outro, juntos.

Citação: Iggy Pop - Fall in Love With Me

I think about a world to come

Era outra manhã, outro café. Seus olhos castanhos apresentavam um aspecto continuamente triste, quase acomodado com a tristeza. Sua postura era de um cansaço, porém não exatamente físico, e sim psicológico - facilmente confundido com, talvez, sono. Ainda assim, suas feições estavam descansadas, infantis, ainda que de tempo em tempo se contorcessem em meio ao gélido ar.
No meio da multidão, seus pensamentos enevoavam em meio ao intenso frio matinal. Enevoavam representando uma clara dúvida, um borrão que aliciava-se a tendência de reprimir o que quer que incomodasse uma pretendida - e ao mesmo tempo utópica - calmaria sentimental.
Olhava os passantes sobre seu copo plástico, já quase vazio, olhava-os desatentamente com a cabeça um pouco baixa. Um olhar mais atento notaria um profundo desalento; porém a rapidez obrigatória imposta pelos andares corridos nunca deixaria espaço para tal parecer. Mordia as bordas do copo sem prestar a mínima atenção nessa ação, e estava longe e cada vez ia mais, até que uma brisa o acordou do devaneio. A distância da reflexão em pouco representava uma percepção, apenas uma visão irreal que lhe trouxe um meio-sorriso.
Estava cansado das percepções, de qualquer forma. Não exatamente delas, afinal, lhe eram um porto seguro e lhe requeriam tempo ao contrário se perderia sem balanço, entretanto aos poucos ia se extenuando de quão fundo ia em suas exageradas conclusões estacionárias.
Afinal, era bom deixar o teor baixar, deixar-se levar e diminuir a exatidão e o cinismo que tomara conta dos cenários.
Seus olhos, além da epiderme melancólica, transmitiam isso, e emitiam em diferentes proporções, em diferentes maneiras - porém eram especialmente fortes nos primeiros momentos da manhã, no primeiro gole de café.

Citação: David Bowie - Oh! You Pretty Things

this living wreck will come again

A praça central da cidade era um refúgio visível à correria e ao sufoco dos estreitos e cheios calçadões do bairro, e trabalhadores cansados dividiam espaço com turistas carregando câmeras e idosos jogando baralho ou dominó. Gabriel sentou-se em um dos bancos, esperando pelo horário de suas aulas de francês com insuportáveis alunos de escolas particulares com absolutamente nada à se preocupar, apenas com qual viagem iriam fazer nas férias seguintes, ou qual ração seus cachorros deveriam comer. Gabriel, após mexer desajeitadamente em seu ondulado cabelo castanho, tirou um cigarro e, antes de acender, foi interromido de seus devaneios por um homem, com uma aparência de desequilíbrio mental e com uma bíblia na mão, tentando entregar-lhe um panfleto. Para evitar qualquer prolongamento daquela interrupção, prontamente pegou o papel – que aclamava as vitórias do poder da fé cristã e todo aquele velho discurso que se arrasta desde remotos tempos em diferentes embalagens sociais para que os humanos insistem em chamar de fé, e que no fundo é só a tentativa de sentir que sua vida é permeada por algum sentido ou base que faz dela de tremendo valor. Para Gabriel, era absurdo pensar nisso – a vida por si só, estar aqui, vivendo, rodeado por infinitas possibilidades, aquilo já era o sentido. Querer mais, em sua realista visão, era inerente aos ignorantes, aos pobres de conhecimento. Viver sem qualquer tipo de amarra, independente. Gabriel levava essa filosofia – por si só constituindo uma profunda crença e um traço visível e forte de sua identidade – por meios extremados e isso transparecia em sua falta de paciência com relacionamentos, no medo que nutria em sua vida social. Tinha aversão das pessoas, que crescera durante os ultimos meses de forma assustadora, mas bastante sociável. Mas seu medo também direcionava-se para a solidão – e, mesmo sendo solitário por concepção, estava cansado daquilo ser quase uma regra. De criar justificativas falsas para não se envolver com ninguém. Sentia-se em um pesado purgatório mental, sentia culpa e sentia que nunca tinha tido nada verdadeiro com ninguém - e recorria ao extremismo para justificar isso que não era inteiramente verdade.

Citação: Mudhoney - Living Wreck

to nowhere

"Corra, o mais rápido que puder! Faça o que quer que faça, corra no limite da máxima velocidade que conseguir alcançar, pela distância que quiser, porque não vai importar" ela disse, sentada ao chão. O quarto parecia ser circular mesmo que quadrado; as paredes tinham uma cor ilusória que variava entre o branco e o preto, em uma confusa ótica. Havia fumaça, e um cheiro familiar inundando aquele temeroso espaço. Não era possível ver o rosto da mulher, ela estava em um nível de chão mais baixo e a fumaça encobria sua face. Seus pés estavam arcados para cima, ambos contraídos. Ele corria uniformemente e em linha reta, porém não saía do lugar. Estava frio, frio que cortava sua pele, mas ele não chegava a sentí-lo realmente. Sua cabeça estava doendo fortemente; seu corpo também. Se sentia pesado, natimorto, moribundo. A mulher começou a rir, repetiu sua frase e continuou a rir, de um modo repulsivo. Ele, continuava correndo, e continuava em seu ponto de partida. Os risos estavam mais altos e começaram a se misturar; haviam outras vozes de pessoas que dessa vez ele conhecia, mas não ligava as vozes as pessoas, mesmo sabendo ser muito próximo dessas. Se misturaram e subiram de volume até se tornarem um som ensurdecedor, inclassificável e não identificável. Um som agudo, de forte penetração, de um denso torpor.
Uma queda.
Acordou - acreditando ainda estar em queda, por alguns segundos. Sua cabeça doía, seu coração estava acelerado. Seu corpo estava retraído de frio; a janela aberta com um vento gelado soprando e as cobertas longe - tinha tirado a blusa, também. Estava fraco, talvez porque tivesse ido para cama sem ter comido nada durante o dia inteiro. Procurou pelas horas; estava próximo da manhã, onde teria que acordar, outra vez, para outra queda. E assim seguia.

just a lonely unstable boy

O celular não tocava há muito tempo e aos poucos ia perdendo sua função. As músicas depressivas que ouvia não o deixavam mal por causa da recorrente lembrança de alguém específico, e mais porque não havia ninguém específico para ser lembrado. Não via mais muitos motivos para fazer qualquer coisa. Mesmo que aparentemente estivesse bem, seus ataques bipolares do nada o afastavam de todos ao seu redor porque ficava irritado com eles, suas vozes, ações. E no fim é melhor se afastar e evitar conflitos do que deixar todos irritados, não é... o problema era que, toda vez que saia em passos rápidos para escapar de todos e sentava, pensativo, com a música, perpetuava um isolamento que no fim nem lhe faria bem.
E cada vez que esse sentimento se repetia, mais chato ele era, mais insuportável tudo ficava... e a falta de alguém perto dele, ou mesmo um forte sentimento, piorava ainda mais a situação.

Citação: Jay Brannan - Unstable Boy

who will connect me with love?

Outra saída para outro cigarro. Manhã nublada, ameaçando chuva, vozes irritantes ecoando por sua cabeça. Sentia-se cerceado de atividades e o acúmulo dessas era inerente; não sentia vontade de fazer nenhuma delas. Não estava conseguindo se expressar com exatidão e as palavras ultimamente saíam de sua boca meio gaguejadas, assim como as palavras que se transcreviam no papel, que nada mais resultavam que esparsas sentenças que juntas não faziam sentido algum.
As situações andavam tão repetitivas, os cenários, as pessoas... ele estava assim também. Estava meio sonolento, se arrastando de ponto em ponto. Estava precisando de algo, alguém inspirador. De uma motivação aleatória, qualquer que fosse. Algo que fizesse ele quebrar sua rotina pessoal, onde se resguardava ao isolamento. Estava livre de qualquer amarra, e talvez isso por si só causasse um certo atrito, porque se sentia sozinho. Essa situação o deixava deslocado e sensível. Se sucedendo a isso, vinham sentimentos confusos e que refletiam seu desespero por alguma coisa real, sendo que a possibilidade mais aferível dessa última tinha recentemente ido embora.
O vento soprava forte, os casacos finalmente apareciam em massa pelas ruas. As estações mudam, as coisas mudam, e aquela situação se inverteria rapidamente também. E a própria expectativa da mudança já servia como inspiração.

Citação: David Bowie - Station to Station

empty bottles, spent cigarettes

Ele sentia que estava trocando algo que queria por algo que não se importava, mas ainda não tinha conhecimento disso. Sabia que não estava gostando daquilo, e sabia que estava interessado em outra coisa, mas na verdade tinha medo de saber um pouco mais e acabar tendo que romper a tênue película que envolve as aparências. Ele se sentia meio rodeado, sufocado, e, mesmo com diversas vontades, preferiu inconscientemente a retração, que no fim não lhe deu nenhum benesse, mesmo tentando forçar seus sentidos à fingirem que fora agradável. Ele ainda não sabia, mas, isso acaba sendo uma questão de tempo, porque, bom, aparências falsas não se carregam pela vida inteira, certo? Ao menos alguma hora você admite para alguém, e, querendo ou não, as aparências acabam afundando enquanto as verdades, agora podres, chegam na superfície.
Ele saiu daquele ambiente, que estava quente naquela noite amena de começo de outono. Acendera um cigarro, andando rapidamente em direção à saída da praia. O vento batia rasteiro naquele espaço, enquanto algumas pessoas estavam aglomeradas dormindo, com diversos copos as rodeando. A baía estava calma, a maré, baixa. Outro cigarro, mesmo se sentindo um pouco asfixiado. De qualquer forma sabia que a asfixia não provinha tanto do fumo quanto provinha de uma sensação que não conseguia se livrar... porque não tinha conhecimento do seu real motivo, não admitia seu real motivo.

Citação: Death Cab for Cutie - Photobooth

vento no litoral

Ia ficando cada vez mais estranho, cada vez mais subversivo e bizarro, ao passo das descobertas que ele fazia acerca da real natureza do relacionamento extenso e cansativo que ele acabara de desfazer. Ele estava ali, sentado, sozinho, olhando diretamente para o mar, porém sem achar significado algum naquele cenário - algo raro, era quase como um santuário a praia para ele. Não havia muitos ao redor, talvez um grupo de turistas tirando as fotos que grupos de turistas sempre tiram, talvez uma senhora idosa fumando seu cigarro de palha, talvez um pré-adolescente pichando uma das barreiras de contenção perto do fim da praia. Ainda assim, a movimentação parecia nula para ele, não havia ninguém, não havia fluxo algum. As águas estavam calmas, a noite se aproximava rapidamente e a temperatura caía vertiginosamente. Já era possível sentir as rajadas de vento típicas do outono, e aquele clima meio úmido e gelado que anuncia a partida do verão, que parece interminável. A noite ia se aproximando, e o céu, com as nuvens antes dominantes agora se dispersando, adquiria tons rosados. A garrafa de vinho branco que havia comprado se liquidara a apenas outro gole, e o álcool não fora suficiente para afastar a sobriedade de sua irritação.
Tinha que ir para casa, voltar para a rotina. Se sentia cansado, não com sono, apenas cansado, exausto. Sabia que tinha que colocar um definitivo ponto final, queria isso, mas primeiro tinha que se desligar totalmente das amarras que o deixaram grudados inconscientemente naquela relação doentia, que mais parecia um ritual de obrigações do que um namoro. Sabia que tinha que executar um fim a esse absurdo todo, e agora já tinha certeza que iria conseguir - foi motivado pela percepção do que estava ao seu redor, quando, bruscamente, sua concentração na delineação da água pelo vento foi quebrada por um cachorro, que roçara em nele clamando atenção. Após fazer algum carinho no cachorro, reparou na senhora acendendo seu cigarro, nas crianças brincando na areia da praia, nos turistas alegremente pedindo informações a um nativo desconfiado. Havia algo em todas aquelas pessoas que o rodeava que o fascinava; talvez fosse a linha do tempo que persegue a todos nós... e era isso que o dava a certeza de que não valia a pena continuar tão preso.

Citação: Legião Urbana - Vento no Litoral

onde as ruas não tem nome

He could feel the freckles of sand running through the hateful wind that was blowing in that summer afternoon. He could feel his heart beating while his head was urging him to remember that absurd night. Yes, he could feel it all. But, at the same time, the rush of thoughts was making him be obligated to stop those sensations.
She interrupted the deep breath he was taking after some thoughts on what he had just made the night before, and would whisper in his ears: ‘I still love you’.
In the opposite way of the mistaken promises lots of teenagers made every day about loving another person and wanting to be forever with that particular one – all product of that shallow ridiculous relationships – their love wasn’t false. They both shared it for a long time and they had gone throughout a rocky road of a tumultuous relationship. But they were still there, waiting to finally be together.
Even though they both wished to be together, at the same time, there was something stopping them from doing so. Something really strong…
That old teenager urge of being free.

Citação: U2 - Where the Streets Have no Name

caminhando semidesperto ao longo do oceano cinzento

As lembranças se esvaiam junto com a intoxicante sensação de mal estar que ele carregava. Ali, andando na vazia faixa de areia enquanto as nuvens invadiam com intensidade o céu que agora há pouco estava próximo do azul anil. O mar se estendia para a imensidão do Oceano Atlântico, interrompido por uma indefesa ilha - a qual ele contornava com sua típica força e intensidade. Os detalhes estavam mais vivos, junto com as cores e as mudanças. O ponto de transição se aproximava de seu ápice e a instabilidade eram coisas relacionáveis e reais, e ele se sentia feliz e livre outra vez. Mesmo que não vendo uma resolução simples ou concreta para aquilo, estava se sentindo bem. Aquilo que faltava parecia estar chegando com uma magnitude que nunca havia observado antes. Todos os relacionamentos anteriores pareciam superficiais e ele agora se perguntava como conseguia acordar ao lado de pessoas por quem ele não sentia nada especial. A idéia agora causava repulsa, mas nada o estava atingindo - apenas a maresia, de um modo diferente e positivo. Sentia o vento baixando a temperatura em ascenção nesse fim de novembro, mês esse que anuncia, todos os anos, o verão mordaz e [sempre] surpreendente. O poder de algo real se alojou nele. E ele não queria que nunca mais o abandonasse.

Citação: E.M. Forster - Maurice (livro)

aquele velho sentido

Não havia como ter garantias, pensou ele, ao atravessar quase intransponíveis poças naquela movimentada rua, em um fim de tarde chuvoso de sexta. Estava repensando a inexorável e inevitável mudança pela qual passara nos últimos meses, respaldada de incertezas e experimentações. Agora se perdia na dúvida da maturidade, se perguntando se então era verdade quando os escritores franceses proclamavam que as cores iam perdendo seu gradiente com o progresso da idade. Se sentia pesado e que havia cometido erros, mas ainda assim não tinha arrependimentos. Entrou em uma cafeteria também para fugir da chuva, porém mais para pegar um café expresso forte e um maço de cigarros, abandonando o abandono à nicotina. Queria ficar sozinho mas precisava de alguém ao seu lado, e quem estava ao seu lado já não lhe trazia aquele velho sentido que tanto procuramos para continuar com um sorriso estampado no rosto. Ele não estava procurando uma determinante pessimista, porém era só em que seus pensamentos resultavam. Precisava de um tempo, de um novo cenário, de frio, de outros caminhos. Estava tudo meio limitado mesmo com os múltiplos caminhos que sua vida pessoal - razão principal de sua angústia atual - poderia tomar dali pra frente. A segurança se fora, e agora procurava, no fundo de um copo de café, alguma resposta, enquanto dois senhores ao seu lado discutiam política com fervorosas e contrastantes opiniões - fervor, contraste, extremismo; uma forte correnteza que o guiasse era o que ele precisava... e enquanto aquela chuva amainava e o incerto tempo ia se abrindo, percebeu que o que precisava era realmente se deixar levar, sem cair em demasiada preocupação sobre coisas na qual ele não possuía exato controle. Já a garantia... bom, do que adianta ter uma garantia quando ela invariavelmente acompanha estagnação? Enquanto se perdia em suas usuais e atualmente intensas demais (intensas ao ponto do isolamento) reflexões, as pessoas iam passando, cada uma delas progredindo em sua história. O forte café já tinha acabado e o segundo cigarro também, agora caído no chão e se apagando aos poucos com cada pingo de chuva que ia mitigando sua brasa.

fuga

Ele continuou correndo. Correndo pelas sujas ruas do centro, enquanto as dúbias luzes da cidade iam o chocando contra insolvíveis dúvidas. Estava tudo meio nebuloso e tudo parecia meio pesado demais para ele aguentar. O aroma típico de fumaça fazia ele entrar em um estado nostálgico e depressivo, e as cores estavam limitadas ao monocromático tom do preto de branco. O caminho já não era mais concreto, e as pessoas já não eram tão perceptíveis. O senso de controle se esvaia enquanto suas pernas começavam a doer. Ele parou. Parou e olhou para o abismo que se estendia ao fim da avenida. Perdia o interesse pelas velhas e repetitivas conversas, pela mesmice da rotina que impregnou. Não queria voltar pra casa, ou para qualquer lugar. Não sabia mais o que queria, não tinha mais certeza de nada na verdade. Tudo parecia tão afastado e o sentido do resto estava acabando. Precisava sentir algo real, e a adrenalina da fuga já não era suficiente. Não era sua intenção essa sensação de perda, solidão e irritação; porém era inevitável... ele queria era se despedir de tudo, estava com vontade de algo que não sabia ao certo se existia. Porém, ao perceber, pelo fim da mesma triste avenida, a ponta do que se extendia o infinito escuro mar, viu que sempre haveria uma saída. Só o restava achá-la.