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time takes a cigarette

Aquela velha sombra que coexiste e coopera cada ato, sendo provedora de causas e efeitos simplesmente por ser inerente ao próprio mecanismo de pensamento e registro, memória.
A base para a criação (ou reciclagem) de ideias, de vontades, de objetivos. Aquela que, nunca inativa, se faz irreparável no ápice entretanto se revela ativa logo após, ao se perceber que ela foi uma das forças motivadoras para qualquer senso e sentimento.
A nostalgia, a lembrança. O que retorna com uma rápida e profunda inspiração, o que é automaticamente ativado com um sabor, o que revela todo um panorama relativamente mentiroso sobre acontecimentos passados de um, o que depende apenas de um inconstante foco de luz para reaparecer com potenciais variáveis, ainda que geralmente estejam em um vértice ascendente que culmina em crises de pensamento que nada mais revelam uma pausa em nossa contínua luta diária para encontrar felicidade.
Deveria eu julgar como parte dessa luta, como parte integrante e fiel, esse sentimento hoje tão incansavelmente repetido por novas mentes que preenchem o vazio que é seus ideais com pré-concepções toscas, que me deixam temeroso quando revelam, por meias-palavras, um aparato de ignorância que mostra um total desentendimento do que significa o terreno que deixamos para trás porém que fertilizou o presente - mas estaria eu saindo do meu real propósito?
Mas qual era o propósito?
Achando no tempo, no circundante e indomável tempo, nas suas linhas de criação. O edifício de nosso indivíduo - esse edifício tão desconsiderado atualmente, cujas linhas podem ser tão rígidas, límpidas e incríveis quanto as de um arranha-céu modernista - tem fundações que são constantemente editadas, melhoradas e reparadas pelo senso do passado que só a nostalgia e sua aceitação, e seu entendimento, eventualmente adensa.
Enquanto se refina esse ode ao que ocorreu, refletindo as possibilidades da [nostalgia] que irá surgir amanhã, se preenche aquela linha, lembram?

Citação: David Bowie - Time

all day I’ve been waiting for the whistle to blow

She held tighter her can as the wind grew stronger and colder, rushing to resuming summer with its heat and its lack of preoccupation and intense zest. An hour had already gone by and about dozen of those same six hundred milliliters cans turned into a light pile of metallic garbage, joining four bottles each with that sip of content glass bottles always leave to themselves. The alcohol hurried through their blood tissues, but not as intense as they’d like, so the plans for something stronger became more recurrent as the night grew darker and the prospects more and more nostalgic and, at the same time, anxious, anxious to make more moments to laugh and share about for many nights like that to come. They weren’t trapped in the cage of the past yet – no, they were still too young for that – but their minds were permanently bound to that arrangement, members of a human race with all its rationality constantly wasted by these personal veins, which spurred into uncalculated fear – and part of that fear partly came from the one we have about not being able to repeat our happiness of outer times, not being able to repeat its place in our confused and impartial mind, which its lack of cohesion and truth we ignore in order to keep running a individual timeline. No, they weren’t trapped in that obnoxious work of mind yet, as it sets its linearity only in the elder – with few exceptions; none of them being a true exception – and, at this young age, appears conflicting with its surge for living the present and foreseeing the future, while being misguided and pleaded and accused by a past blended with that untrue complete fulfillment.
Though lightly, that special sensation the transitory state from sober to its opposite offers was filling her eyes with excitement and her laughter was surely rising stronger, and this condition was spread all over that five-member club. The conversation was rising its tone as one memory lead to another, and as the end of one recipient led to the opening of another.
Maybe the alcohol effects and its worldwide search have something to do with the freedom that it involves – she thought, as she closed her eyes and bended her head a bit backwards. Excluding the socio-economic and biologic aspects which came in line resulting in a widespread consumption, of course, the alcohol is probably linked with this, she thought, though not taking herself seriously – and she didn’t want to, is not that she couldn’t, is that she felt happy for being able to not taking herself seriously, digging that mechanism that was involving her whole body, and accompanying perfectly the scent of the night and the buzzed bright streets.
“Hello there...?” her friend now. He wanted to know if she wanted a cigarette or something, they were heading to the market. She grabbed the last one of her package, lit it, and went with them to conclude the basic planning for the rest of the night – which meant buy more booze and some smoke – and, a week later, they would gather once more, united by that same basic planning, and would talk about it in the endless hope of attaining the same amount of pleasure, while remembering a past which wasn’t far enough to come in their way, only enough to enjoy the night in its basic premises, and drink a shot in a tribute.

Citação: Stray Cats - Let it Rock

dum dum boys

Como quando sentávamos em círculos, em grupos, felizes, embriagados, dividindo opiniões similares e precipitadas sobre determinado tema, e éramos tão imediatistas e teimosos sobre nossas palavras. Dividíamos naquele momento um profundo prazer, não exatamente aquele prazer refinado e poético que tanto se almeja e valoriza, mas sim aquele que promove as prosas intermináveis e a vontade sem pensar, sem pudor. Se mentíssemos o motivo seria puramente superficial e não havia malícia.
Éramos novos, e corríamos do sol e procurávamos por algo para beber e ansiávamos em ver o mar, em chegar na praia, e íamos perdidos em uma transe e uma fluidez, e tínhamos total certeza que acharíamos o caminho - exatamente porque não pensávamos muito nele.
Exaustivamente e repetitivamente, perguntaríamos todo o sentido, e discutiríamos ele com aquela certeza juvenil - porém nunca realmente procuraríamos ele, porque ele não era necessário, porque só estar era o fundamental.
Sem perceber, sem querer, construíamos o intrínseco de nosso ser, da nossa vivência, e traçávamos a linha principal que iria correr os boulevards e avenues da posterioridade. E iríamos alargá-la com cada momento de euforia e animação que iria proporcionar a mudança para highways e autobanhs. E o cansaço seria rapidamente substituído por mais, e estaríamos satisfeitos sentido no físico toda aquela exaustão - exatamente porque significava proveito. Estávamos preparando nosso terreno.

E continuaríamos a preparar, mas com o irritante atenuante de tentar imitar o passado, cujas imperfeições passaram despercebidas em meio à fluência que nossa imaturidade proporcionava.

Citação: Iggy Pop - Dum Dum Boys

moment’s notice

A lânguida sombra que fazia frente a diminuta fresta de luz que penetrava pela janela era, de seu modo, animadora. Ele poderia encarar aquela sombra, poderia deixar sua atenção repousar por horas naquela forma escura, até ela se revelar em luz, até se revelar em uma linda forma de um corpo.
O vento soprava cada vez mais longe o resquício de frio, e as expectativas se amontoavam, culminando no sentimento que construía por aquele ser, que a sua frente se levantava para tomar algo, que caminhava pelos corredores daquele modo característico, desajeitado. Em seus olhos transcrevia-se, cada vez mais, uma anciente tristeza, uma deficiência de afeto que, só pelo segunda atenção se percebia, e uma deficiência que prostrava uma de difícil transposição barreira, uma barricada sentimental. Os olhos, porém, reluziam quando excitados, e com força. O corpo, dado aos trejeitos mais detalhistas entretanto de certa forma jogado e desprendido, estava perdendo sua variedade de movimentos com uma tendência ao isolamento pessoal.
E, aquela fase melancólica em que a sombra escurecia mais um pouco, aquela sombra revelaria-se ainda mais impressionante ao encarar a pura luz, e ele queria ser o agente determinante de tal transição.
Citação: John Coltrane - Moment’s Notice

everyone else rushing round

Ainda não amanheceu. Os termômetros da beira-mar marcam 9ºC e o movimento de carros é mínimo, quase como se a avenida estivesse em seu repouso obrigatório antes de agüentar outro dia e noite com intenso tráfego de veículos sobre seu asfalto castigado. A calçada está quase vazia, há um mendigo em um dos bancos e alguns locais já estão fazendo sua caminhada diária. A baía está lisa e o céu limpo; a escuridão da noite já está cedendo aos primeiros raios de sol. O rádio do carro está particularmente agradável, tocando um repertório repleto de bossa nova, condizente com esse cenário de fim de madrugada. Recém acordado, ainda sinto meus olhos pesados e anseio por um copo de café. Um cheiro característico infla o carro quando abro um pouco a janela, misturado com o vento gelado que bate de leve. Era realmente algo que me agradava, aquele frio, a vista da beira-mar. É estranho observar esses lugares que comumente estão sempre apinhados quando vazios. Silenciosos.
Ao sair do carro, aquele cheiro e vento característicos da baía, agora um pouco acentuados. As pontes se erguem em meus dois lados, com a que simboliza a cidade já com as luzes apagadas. Antes de começar o treino, dois copos de café e uma corrida pela cabeceira da ponte, duas vezes, ida e volta. Os pescadores já ali estão arrumando seus equipamentos, concentrados, passamos despercebidos por eles. Os outros meninos aparentam sono, como eu, mas dividem algumas piadas enquanto reparo no grafite que preenche quase inteiramente as laterais dali. Na última volta, apostamos uma corrida - terceiro lugar, não tão ruim. Chegamos, finalmente, hora de ir pra água. Vamos em quatro, enquanto o treinador está me alertando para que use mais a academia do clube - não é exatamente minha parte preferida de lá. Primeiro pé na água - terrivelmente gelada, e o lodo em nada ajuda, ou o aroma. Vou sozinho, enquanto os outros irão em dois e mais outros dois sozinhos também. O single skiff amarelo está em boas condições, mas não os remos... não que fosse de tamanha importância também. Sento no barco, ajusto o carrinho e os remos. Tudo pronto - ah, com um aviso extra do treinador para não irmos em direção sul porque se não acabaríamos surfando. Passo por baixo da ponte, chego na beira-mar com sua cortina de prédios, que logo estariam refletindo a luz do sol. A água está realmente excelente - quase nenhuma ondulação. Os remos fluem por ela com facilidade, o skiff sem o menor problema. Mesmo sem fones de ouvido, uma música está ecoando na minha cabeça, quase como uma trilha sonora para aquilo. O céu está tingido parte por um rosa, parte por um azul quase escuro. Acelero um pouco, já que fiquei atrás por conta de tanta observação. Não é difícil aumentar a velocidade dado a tranqüilidade das águas. Já há muito mais carros nas ruas, muito mais pessoas caminhando. Poderia fazer aquilo durante toda a manhã, mas ainda tenho aula. Depois de meia hora, paro e observo por um momento. Os barcos, as gaivotas, pra que tanta pressa quando isso implica tão pouca observação?
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Mesmo não praticando a quase dois anos, pretendo voltar ainda ao remo, e estou morrendo de saudades de toda essa rotina.

Citação: Nada Surf - Blonde on Blonde

somehow it has become unmentionable

Poderia dizer que o que mais valorizo nas pessoas é seu intelecto. Acho que quanto mais aprendo com alguém, mais consigo me aproximar e mais elementar tal pessoa se torna para mim. Não precisa exatamente ter muito conhecimento agregado, ter vontade de agregar conhecimento já é uma qualidade que valorizo bastante.
Até porque isso é necessário para o debate, para a conversa, para ter o que falar com alguém. Acho meus amigos mais próximos pessoas muito inteligentes e não é raro eu me pegar em momentos de admiração por vários deles. Aquela popular sentença que nós nos tornamos parecidos com quem nós andamos acaba que por muitas vezes sendo bastante verdadeira pois, conscientemente ou não, absorvemos estilos, sotaques, expressões corporais, opiniões e idéias (ou a falta dessas duas últimas) de quem nos rodeia. Pode não ser uma afirmação certa em todas as ocasiões, mas com o tempo acabamos nos ajustando ao nosso círculo de relações.
Fico imaginando se não tivesse conhecido algumas pessoas, se não tivesse me envolvido com algumas delas, quem teria vindo no lugar, o que teria ocorrido. Com algumas é até impossível imaginar isso, pelo modo que me atingiram e continuamente me atingem e me alteram. É difícil imaginar. Algumas me tiraram do meu espaço-comum, me levaram a novas coisas e mais novas pessoas, que nunca imaginei conhecer. Com pessoas assim entra ao meu alcance coisas que raramente aprenderia sozinho.
No fim das contas, penso em meus amigos e me sinto feliz de ter conhecido e dividido momentos tão incríveis ao lado de pessoas igualmente incríveis. Mesmo sendo difícil administrar as diferenças, é preciso aprender a conviver com elas - até porque com as diferenças se aprende bastante. E aprender com os melhores.

Citação: New Order - Thieves Like Us

the cold air will rush your hard heart away

Erramos ao procurar. Erramos ao criar obstáculos. Erramos ao evitar e acabamos errando também ao forçar. Erramos - e isso acaba sendo a regra básica, necessária e geral para o caminho que traçamos. Quando sentimos que erramos ao olhar para trás e perceber que o caminho poderia ser diferente, o erro pode ser falso pois trouxe experiências diferentes [e boas]. Não sei se errei, sei que me sinto perdido e meio sozinho, como se tivesse deixado passar momentos e pessoas que me faziam sentir tão bem e acolhido. Não que não possa achar outras - ao passo em que deixei umas passar, acabei criando oportunidade para outras surgirem [e irem de novo] -, mas não sei se a escolha de continuar descompromissado e até displicente foi de tanta recompensa quanto seria a de se entregar um pouco mais. O clima está amainando para o outono e a ansia por alguém ao meu lado aumenta e choca-se com um estado transitório que nunca parece transitar.
Não estou procurando, não pretendo criar obstáculos ou evitar. Forçar é inerente à vontade de não fazer nenhum dos três primeiros, mas ainda assim, tento manter meu espírito livre. Sentimentos convergentes e controversos entre si criam um contraponto nesse ínicio de aulas e volta de uma temporada de muita gente nova e agradável, aonde pude resolver-me um pouco de toda essa confusão - porém [eu sei que] ela volta junto com o vento do inverno.

Citação: Death Cab for Cutie - Photobooth

o velho ímpeto de sentir

Acho estranho ter lembranças fortes só por ver uma foto, ou por estar em certo lugar, ou sentindo a textura de algo, ou ouvindo certa música ou até mesmo um ruído. Ainda mais quando não é apenas uma, é um turbilhão incomensurável de memórias. Memórias de sentimentos que se transformaram em fantasmas do passado por não terem tido uma resolução adequada em seu término. É inevitável pensar em como seria diferente se algumas ações minhas tivessem sido diferentes. Mas também foi inevitável o que aconteceu. Talvez uma questão de maturidade ou de minha própria personalidade conservadora, se algumas eu não tivesse colocado um ponto final, poderia ter resultado em algo pior (ou talvez essa motivação seja só resultado de covardia), e as lembranças boas seriam dissolvidas em uma mágoa mútua que só tenderia a crescer.
Não é necessariamente um consolo que a maioria dessas lembranças sejam na verdade boas, porque isso me deixa pensando que eu posso ter evitado mais lembranças boas a serem criadas. Resulta em um subterfúgio para que eu continue essa mania egocêntrica de me isolar em minha própria bolha - algo que venho trabalhando para abandonar.
Originalmente, essa postagem foi concebida dentro do mar, enquanto mergulhava embaixo de uma formação de nuvens depois de mais um dia quente e abafado do castigante e cansativo verão. Estava escurecendo, o dia tinha sido mais outro excelente dia na praia com amigos, e meus hábitos de verão estavam me fazendo esquecer de todo e qualquer drama do ano que acabava de passar. E isso é algo consolidado, felizmente: o drama havia passado. Claro que outros irão surgir durante o ano, mas, os que passaram, definitivamente me prepararam para novos.
Confesso que as lembranças de quem lembrei são muito boas. Foi aproximadamente na metade do verão que nós acabamos juntos, em outra noite quente e agitada de verão, na praia. Foi tão gostoso e acabamos vendo o nascer do sol dentro do mar, sentados na beirada da areia. Essa cena iria se repetir diversas vezes durante nossos meses juntos, assim como as cenas no campo de futebol. Lembro com completa visibilidade de nosso tempo juntos, e, após o término, me perguntei até cansar porque eu terminei com você. Consegui ilustrar o motivo, porém ainda me pergunto se foi um motivo tão forte para terminar. Quer seja ou não, o que sucedeu isso também me proveu boas lembranças. E disso não tenho nenhuma dúvida ou perguntas para me fazer.
E, quero que você lembre-se sempre que pensei, primeiramente em você. Se tivesse pensado só em mim, teria deixado que isso se estendesse até tudo se deteriorar. Mas não o quis - depois de horas e horas a fio pensando na melhor forma de agir com precaução. E, depois de tudo isso, e depois de reler o que acabei de escrever, me sinto tão bem por ter tido algo tão especial com alguém ainda mais - e fico em espera por ter isso de novo, porque simplesmente não consigo mais suportar a volatilidade dos outros.

universos paralelos

A mudança é tão estranha porque tenho diferentes grupos de amigos que me conheceram em diferentes épocas da minha adolescência - período no qual uma pessoa mais muda. Ao falar com cada um deles sinto que eles não me conhecem bem, só por não terem acompanhado as mudanças que sofri durante esses últimos anos - irremediavelmente gigantescas. Alguns até acompanharam, e são nesses que deposito maior confiança pelo bom entendimento que eles tem de minhas ações e atitudes. Os que me conheceram mais cedo, no ensino fundamental, por exemplo, e que não mantive convivência nesses dois anos de ensino médio, são os que com mais sinto essa abrupta discrepância: é estranho conversar com alguém que acha que você parou no tempo e continua aquela pessoa com aqueles velhos gostos e ânsias.
É estranho também perceber como a vida deles se encaminha, enquanto você tomou um rumo completamente diferente e agora anda com pessoas opostas. A mente aberta de meus amigos atuais se opõe ao suburbanismo que exala dessas pessoas que, mesmo que com mentes limitadas, ainda me proporcionam uma sensação absurda de nostalgia e boas lembranças. Lembranças de um tempo onde brincar na rua era minha principal ocupação e sexo era um termo engraçado que só se exibia em piadas infantis sobre a novela das oito. Não estou reclamando da mudança e nem tentando atenuar o passado como perfeito e idolatrar a inocência, mas são só lembranças nostálgicas.
Tenho a noção realista que meus amigos atuais vão um dia seguir rumos diferentes dos meus, e talvez nosso contato se perca ou talvez conseguiremos mantê-lo de alguma forma, mas pessoas diferentes são agentes positivos para novas mudanças. Então, vou tentar manter o clima nostálgico baixo, por mais difícil que seja, ainda mais que é natal.

construção da rotina destrutiva

O sol ainda não nasceu, e o escuro impera sobre as colinas habitadas margeadas pela rodovia - que ainda não está movimentada. Um quente banho dá o ritmo para o resto do dia, que presume-se ser mais outro cansativo. O sol dá sinais de querer nascer enquanto subo no primeiro ônibus, relativamente ocupado por sonolentos rostos. No segundo ônibus, a visão do sol nascente contrastando com as águas calmas da beira-mar norte e os remadores espantando gaivotas com seus remos e remando por entre a sujeira da baía deixa a manhã com um gosto menos amargo, e até, ao menos para mim, nostálgico. A música dá o tom para o resto do dia e um café na praça inicia seu ciclo.
As luzes da escola acendem no ínicio de uma preguiçosa manhã. Os corredores vão enchendo até o primeiro sinal tocar e lembrar a todos de entrarem nas salas, sentarem nas cadeiras e aguentarem quatro horas ali sentados se conformando com o sistema educacional, com uma breve interrupção para o recreio. Dia após dia, as conversas vão ficando mais escassas assim como os assuntos, já que a mesma convivência que fez amizades agora as deixa monótonas. Todos começam a necessitar sentirem saudades para evitar aborrecimentos, comuns a quem se vê cinco dias por semana.
Eu olho para a janela e vejo o sol iluminando as ruas e as casas do centro da cidade, e a vontade de sair da sala de aula se sobrepõe a obrigação de terminar mais outro semestre com resultados positivos. Ao mesmo tempo que tudo parece passar rápido demais - olhe, ali já está o natal! - os dias, de tão rotineiros e parecidos - parece que se estendem para sempre. As férias parecem nunca chegar. Quando chegam, a rotina já era tão premeditada e seguida com tanta religiosidade que uma sensação de estar desocupado preenche minha mente.
Os melhores anos de nossas vidas não podem estar resumidos a um resumo do que seremos quando adultos. Mas eles parecem estar acometidos a isso mesmo... e parece que é exatamente isso que tais adultos querem, quando clamam por resultados e comentam do 'mundo lá fora', como se não vivessemos nele. A ideologia adolescente da ânsia por liberdade e por diversão não pode ser tão irracional assim.

entre eu e você, 1

Começo de tarde. Sol alto, calor ao ponto do insuportável, praia chamando por meio de sua irresistível brisa marítma - e pelo cheiro inconfundível de protetor solar. Você me chama para um banho de mar enquanto coloca seu biquini azul com bolinhas brancas que contrastam perfeitamente com seus olhos azuis e sua pele em transição para algo próximo do bronzeado. Corremos em direção ao mar enquanto as ondas nos pegam sem nenhuma surpresa, com exceção do choque térmico que envolve nossos corpos e a sensação sempre garantida de alívio e ao mesmo tempo intensa que a água salgada trás. O vento parece não incomodar porque nada mais parece incomodar, afinal, está só nós dois e tudo parece conspirar para uma ótima tarde. E realmente foi, como sempre acaba sendo ao seu lado.
E aí que vem na memória todas aquelas noites em companhia sua, nesses últimos três anos.
Minhas estações começaram a ser marcadas não só pelo clima, mas por alguém.
Todas os abusos no álcool com você, todos os filmes idiotas e caricatos, todas as listas e todos os cafés - ah, e nossos pequenos rituais.

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Finalmente pude matar minhas saudades suas hoje. Sério, mesmo com nosso (pequeno, porém, ao menos para mim, risivelmente perceptível) afastamento, você continua sendo a que melhor me entende, e continuo te entendendo do começo ao fim. Continuamos com nossos modos diferentes e mudamos muito - na verdade, o que é mais latente é que mudamos de cenário, e, agora, estamos os dois em panos de fundo diferentes - mas nossa relação pareceu intocável e acho que a noção de nós dois juntos nunca vamos perder. Queria acordar amanhã ao seu lado, mas a rotina impediu esse desejo e a trilha inventada de hoje pôde reparar um pouco a falta que você me fez. E, só porque você manteve seu espírito nesses quase três anos que nós temos juntos, loira... te amo.

as ondas

Não importa o quão mal estou, há coisas que sempre irão me ajudar. Ao observar as ondas quebrando na areia ou os movimentos que a árvore faz ao acompanhar o vento, em cima de uma bicicleta, vejo o quão superficial são minhas preocupações em relação ao mundo. Em relação ao quanto ainda tenho que ver e vivenciar. A grande gama de coisas que o mundo podem me oferecer depende de o quão disposto estou para abandonar o medo e prosseguir. O número de pessoas que ainda tenho de conhecer e o número de amizades que tenho para prolongar. Não é preciso tanto drama, até porque em parte ele nem é verdadeiro. Fui iludido pelas minhas próprias falsas expectativas mas prefiro me sentir mal a não sentir nada, talvez.
O que se passou se passou e agora é importante seguir em frente, sem deixar o passado me bifurcar para um buraco de isolamento. Haverá sempre o amanhã, haverá sempre o sol nascendo e as nuvens que o cobrem eventualmente o deixam brilhar e fogem de sua força. Quero que esse espírito renovador tome conta de mim de novo e espante o que quer de ruim que esteja sentindo agora... até porque sei que, em algum momento, irá espantar, como já o fizera antes.

da maneira que conseguimos

Passei nas últimas semanas por um intenso processo de afastamento. Afastamento de pessoas, de ideais, de rotina, do estudo. Estou completamente abismado pelo grau de afastamento que obtive de pessoas que sempre foram muito próximas a mim e que, na verdade, eram as únicas pessoas para as quais eu abria meus sentimentos. E o que mais me surpreende é que, mesmo que eu esteja gastando mais do meu tempo dentro da escola, na verdade me afastei de grande parte das pessoas de lá. Estou terrivelmente sensível e, quando alguém me irrita ou me machuca de algum jeito, tento não protestar para evitar conflitos desnecessários - já que, como opinião forte e teimosia são características minhas, o conflito iria provavelmente se estender. Porém, ao não protestar, consequentemente me fecho, o que provoca o afastamento. Estou enjoado do moralismo, porque como a moral é algo pessoal, então ela varia de acordo com a pessoa - o que faz com que isso me atinja, já que seguindo tal raciocínio outras pessoas não terão o mesmo pensamento que eu e isso me irrita. Dessa vez não é [só] uma questão de egocentrismo, é de sensibilidade também. E na verdade sempre achei pessoas moralistas demasiadamente como insuportáveis e despejáveis.
As pessoas que eu julgava mais bem me conhecer (e realmente é fato consumado) me cobraram mais atenção e não perceberam que meu calendário não é flexível e eu tenho compromissos que realmente preciso cumprir - ao contrário deles. Não que eu esteja criticando eles - sim, eu não me afastei só por causa da escola, mas foi algo involuntário - porém eles demoraram à entender meu lado (logo quem deveria ter entendido mais rapidamente, ainda mais porque já passamos por isso antes no ano passado). Mas isso não vem ao caso também, porque entendo eles e seus motivos.
Sempre fiquei muito bem com minha solidão. Não necessito de pessoas ao meu redor - pelo contrário, fico irritado com muitas. Gosto de atenção, também de ser o centro das atenções de vez em quando, mas não necessito disso. Não me sinto bem correndo atrás das pessoas pela vulnerabilidade que isso envolve, mas sempre que recebo respostas positivas ao fazer tal coisa fortaleço a idéia de que exposição pode ser benéfica. Sou bastante sociável porém tenho dificuldades absurdas para me aproximar de alguém, e na outra linha facilidade para me afastar - não gosto de depender dos outros (na verdade, odeio, abomino), talvez por isso se aproximar seja difícil, pelo medo da dependência. Agora me vejo com independência arrasada; me vejo no meio de algo complicado e no meio de uma decisão que ainda não tomei. Estou me segurando porém minha impaciência está asfixiando a espera - que acho necessária no momento.
Quero me reaproximar de quem me afastei e que tanto gosto. Quero voltar a ser quem eu era com as pessoas com quem estava. E escrevo isso da casa de um velho amigo que está choramingando o tempo todo desde que cheguei o porquê do meu afastamento. Estamos bem de novo e surpreendemente hoje não está sendo difícil driblar a infantilidade dele. Depois seguiremos na madrugada para o trapiche e dividiremos conversas e cigarros ouvindo as ondas batendo na grossa areia da praia. E a nostalgia batendo forte permeada por músicas do melhor estilo trilha sonora.

mentes retrógradas/saudosismo

A ideologia, a cor, o suor, a mancha, a coragem e, acima de tudo, a vontade deram lugar ao comodismo, ao conformismo, a sombra e ao esconderijo. E deixo o tom saudosista fluir por aqui porque é realmente sobre isso que o texto é mais sobre. Não escrevo tratando tais palavras como algo absoluto, só as digo em um momento cínico de reflexão.
Estou achando tudo e todos muito superficiais - incluindo eu. Tudo muito hipócrita e os erros são identificados errôneamente, quando na verdade nem são erros. O falso moralismo se impregna como um vírus; ou como igrejas evangélicas neopentecostais se impregnam em bairros pobres. Está tudo muito entregue nas mãos, ninguém liga mais pra nada e tudo parece estar fadado ao mecanismo do faz, processa e morre. Está tudo fácil, não há mais gosto pelo trabalho ou pelo lugar onde se vive, os adolescentes se entregam com tudo à facilidade da ignorância - a gigantesca maioria deles (minha faixa etária, na verdade) fala de aparências e... aparências. Ninguém parece mais refletir sobre nada, e também parece que não há nada conspirando para que se faça tais reflexões. Você entra na pré-escola para te preparar para o ensino fundamental, que te dá (ou ao menos deveria) as bases para o ensino médio. No ensino médio você é preparado para o vestibular; passa no vestibular, entra em uma instituição de ensino superior para ser preparado para algum trabalho; trabalha; se aposenta caso consiga driblar todos os percalços envolvendo possibilidades de morte durante a meia-idade e... bom, morre. É só isso mesmo? Parece que todos estão se contentando com o sim. Não estou aqui impondo uma dicotomia revolucionária, só estou realmente abismado após tal reflexão da capacidade de comodismo e hipocrisia dessa população - população historicamente batalhadora que é a dos brasileiros.
Pessoalmente acredito no progresso - acredito no desenvolvimento, na mudança, no futuro. Mas estou confuso com as consequências benéficas de tal progresso... quando ele parece parar por aqui, porque ele não deveria parar. O pior, e é por essa possibilidade que nutro mais aflição, quando o desenvolvimento para na cabeça das pessoas. Quando você seu pensamento nunca evolui, quando sua mente não se expande. Mas não é tempo de pensar nisso, refletir indo tão fundo na psico humana não é algo para minha idade.

imensurável

Eu acho extremamente absurdo quando eu ouço uma música e, ao longo da mesma, me encontro passeando por certa época passada. Seja pelo verão do ano passado com suas linhas delineadas na areia após intermináveis e agradáveis caminhadas pela praia, seja algum relacionamento, seja um simples porém marcante acontecimento. Me sinto corroído às vezes pela nostalgia que me invade ao ouvir tais músicas. E não pela lembrança em si, que geralmente é boa, mas sim pela percepção de mudança que toma conta - é imensurável as mudanças pelas quais passamos, especialmente nessa faixa etária, ao longo de relativamente curtos espaços de tempo. É a invasão dessa percepção que transforma a mudança em algo incômodo, porque, como poetizou Renato Russo, o imperfeito [quase sempre] não participa do passado.
Os relacionamentos, os gestos, os risos, as conversas, as ações, os sentimentos, as entradas no mar, os tropeços, as noites em claro, os momentos, as cobertas no chão, os livros... era tudo tão diferente. Diferente porque minha visão era outra (não completamente, mas bastante), minha percepção era outra, minhas preocupações eram outras. Pode ser exagero, pode ser uma reflexão absurda depois de outra ainda mais pela qual passei, mas no final o importante é valorizar o passado com toda a elementariedade que ele proporcionou; mais importantemente: toda vivência pela qual passamos, e a transformação pela qual sucedemos. Porque é sempre importante mudar, sempre. Ficar parado no mesmo lugar significa poucas memórias no futuro, o que significa que tal reflexão que estou fazendo agora não iria acontecer, pelo simples fato de uma abstinência de nostalgia. Foi bom, passou, foi excelente, passou; mudei e as pessoas ao meu redor mudaram - e não só no sentido de serem outras pessoas, porque mesmo as que continuaram enfrentaram uma profunda transformação.
Mas ainda assim, os resquícios do passado - e o às vezes irremediável sentimento de que houveram sérios erros que poderiam ter feito toda a diferença - podem ser perigosos, e é logo aí que não conseguimos fugir da nostalgia. O futuro se estende a nossa frente para aplicarmos tudo o que essa evolução de maturidade nos fez, de um modo ou de outro, aprender. Está aí para não repetirmos - e repetirmos também, porque sempre acabamos fazendo tal - velhos erros e errarmos mais para aprendermos mais. Mas sempre volto àquela questão terrível; a mudança levou o caminho certo?