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O ciclo não se faz de um

 Olhando para trás, nesses últimos dias de sentimentos mistos – ainda que pouco conflitantes, já que há uma certeza no fim que se procura e no qual se deposita o esforço e energias – e de uma nostalgia não pronunciada, mas tão inerente ao fim de um ciclo que por si só não representa de modo algum um circulo fechado que se encerra, mas um ciclo no sentido de um período de intensa transformação que nos moldou em direção a uma busca comum, ainda que sem percebermos de que estávamos começando a trilhar caminhos, seguidos por vontades e ideais – que, com alguma sorte, nos pertence, adaptados a nossas ânsias do conhecimento e experiência dos experimentados que nos cercam. Dias que vão passando em frenética e imbatível velocidade, porém velocidade essa que não suplanta o cansaço, que maximiza estes findos momentos deste ciclo – para o bem e para o mal. Olho para trás com um sorriso fechado, cerrado em incerteza, mas pronto para expandir-se. Agora torna-se clara toda a sorte de estar cercado por indivíduos de minha idade cujo conteúdo não é limitado pela preguiça e mediocridade do senso comum, e cuja eventual falta deste não se apresenta como limitação ou entrega ao fácil e fétido, mas sim uma motivação na procura e no crescer. É num contexto de inteligência que desenvolvi meu intelecto, aliado a uma curiosidade que não classifico de sorte nem algo do gênero – resisto em acreditar no desenvolvimento de intelectos próprio como algo intrínseco apenas a mim, já que considero ser intrínseco a mente humana por si só. Talvez sorte por quem encontrei, por quem convivi, por quem me envolvi, envolveu-me e com quem me relacionei, e por àqueles que pertencem a família na qual nasci. O sentimento misto é fruto do estresse, reconheço, e a tristeza que reside escondida sob animação – por sua vez escondida pela própria urgência que não é medo de não conseguir em si, quem sabe apenas a pólvora do gatilho do amadurecimento, cujo início ainda traz certa apreensão de não chegar lá, de ficar parado em uma estação insignificante, enquanto o trem para a capital partiu sem você. Essa tristeza é de abandonar justamente estes que foram de importância elementar para todo este processo que você está completando, pronto para se jogar em outros que potencialmente materializarão seus sonhos e aspirações. A tristeza constitui-se de camada fina, rompida ao você recordar especialmente dos momentos bons que passou ao lado destes – ou seja, ao perceber que na verdade a saudade só existe por que você aproveitou os momentos com devida intensidade, que superou os toscos impasses por boas risadas à beira da lagoa ou do mar, que tem histórias ao lado das mais diversas, incríveis e – como seria diferente..? – estranhas pessoas em um momento que era justamente desta diversidade que você necessitava, para desenvolver-se em alguém capaz de assimilar um planeta tão extenso e diferente, cujas paisagens, ideias e diferenças coexistem não como dificuldade ou instrumento de discórdia, mas como um agente de interminável mudança e transformações. E quando mundo para se explorar. Quantas pessoas e lugares por conhecer... E me resta a certeza de que irei levar estes que me acompanharam no ciclo que se encaminha para uma conclusão, que vou levar todas essas explosivas, recalcadas, absurdas, cheias de vida, de ideais irreversíveis e irrecuperáveis, os imaturos que hoje trabalham ou estudam calados e prendem seu interior para recuperá-lo de maneira que caminhem como indivíduos que devem ser. E só por constituírem-se como tais, já carregarei a felicidade desta certeza, de ter uma formação calcada nesta convivência.

anti-hedonistas (de merda)

A velha senhora entregou outro olhar, cansado, abatido, e deixou que seus dedos tocassem as margens da água daquela enegrecida e poluída lagoa. O menino continuou parado, esperando qualquer palavra dela, que lhe olhava tão atentamente pelos últimos minutos. Ela se encontrava na iminência de lhe falar algo, com o peso de uma voz que já atravessara anos e anos, e a densidade daquele intervalo preenchia o ar que resistia, gélido, primaveril, nostálgico.
Finalmente, então, ela lhe dirigiu as palavras.
“Você, menino, do alto de sua juventude, pode me explicar porque tudo está tão insuportável..?” Ela diz, e ele olha, sem entender a pergunta, com curiosidade. “Porque tudo está tão chato, tão sem sentido, tão plano... você deveria saber, está crescendo no meio de tudo isso” ela continua, olhando para um ponto fixo na lagoa porém sem estar realmente observando nada.
“Como..? Me desculpe, não entendi” é a resposta que ele entrega a ela, algo que a senhora recebe sem surpresa, como se já esperasse aquela falha de comunicação, uma que não era exatamente referente ao abismo de idade entre ambos, e sim uma ruptura cultural.
“Sim... quero dizer, vocês estão no meio de tanta possibilidade, com seus computadores, com tanto movimento, e parecem cada vez mais parados... é tanta coisa nova querendo proibir a geração que está por vir, a sua, digo, são tantos artifícios querendo impedir vocês de se divertirem ou dizerem o que pensam e vocês simplesmente recebem isso de braços abertos, ao mesmo tempo em que tem tanto poder e tantas ferramentas...” diz ela, confusa, rapidamente, inicialmente parando apenas para respirar - mas, ao notar a confusão nos olhos do menino ao seu lado, volta atrás. “Não entende ainda, menino?” ela pergunta, outra vez, numa voz ríspida, irritada, porém pouco surpreendida.

A lagoa continuava linda, ela pensava. Os que passavam correndo, em suas roupas de esporte, ou com seus cachorros, ou os jovens com aquelas câmeras sofisticadas que para pouco serviam... onde estavam os risos reais, os grupos, as latas de cerveja, os maços de cigarro?
E o menino, que já caminhava de volta para qualquer outro lugar, cujo andar pausado revelava uma confusão advinda das palavras que absorvera daquela velha senhora, ó, que pena desse que vai ter que enfrentar uma época tão... chata, monótona.

os tempos de solidão

Ignore toda a verdade que circunda seus conflituosos pensamentos, e ignore suas atitudes estúpidas que se repetem e se tornam algo tão intrínseco de sua personalidade que fica difícil distinguir seu próprio humor.
Mas, simplificar como o puro e simples ato de ignorar talvez seja inapropriado, até porque é algo muito mais complexo e fundamental que um ato, ou um padrão de atos, de cenas, da sucessão delas.
O momento de se arrepender por essas ações vai se arrastando e torna-se um simples resultado reacionário, algo que é feito de modo mecânico dentro de uma rotina que aos poucos se torna difícil de escapar. E, o escape que aparece, frigidamente, é um radical e simplista caminho que ainda que de início parecendo uma via por entre um campo aberto, aos poucos se mostra limitado a apenas a via em si, dentro de um repertório contínuo e repetitivo. A alternativa que digo é a solidão - tão insuportável e envolta por gigantesca capa emitindo medo para alguns, porém tão agradável para outros. Não sei se faço parte dos outros inteiramente, porém certamente grande parte de mim faz parte desse limitado percentual. O conforto, nesse caminho de confronto, vai se esvaindo, e recai nos seguidores as limitrofes humanas de subsistência - de necessidade de companhia.
Não me aventuro com total entrega a esse caminho, me mantenho cauteloso com certo medo da incipiente infinidade que o caminho propõe, sem ramificações, sem retornos, ao aprofundado. Íntimos pessoais me conferem certa aptidão para tal, mas os peões que interferem como obstáculos para seguir esse obscuro logradouro se apresenta em forma de indivíduos incríveis e toda a prosa interminável e que representa o extremo do fascínio.
E não ignore, porque é a recusa do êxtase, e é o que há de mais nutritivo para uma vida - o êxtase, o momento, a prosa, fluindo...

Citação: parcialmente do romance de Gabriel García Marquez, Cem Anos de Solidão.

unorthodox

Eu os via sobre uma visão mais clara, a cada gole. O café tinha gosto requentado porém era forte, e, amargo, funcionava como um excelente aditivo ao primeiro cigarro, naquela manhã preguiçosa e agradável. A chuva caia sem pressa, e prendia o frio deixando o vento mais gélido. Poderia dividir uma cerveja naquele exato momento com qualquer um daqueles que nas calçadas dormiram, que delas despertavam, ao primeiro raio de luz, que chegavam encharcados e com olhos perdidos e continuamente flagelados pela vida na rua. Talvez a familiaridade e certo aconchego que emitiam provinham da quantidade redobrada que necessitavam para as noites invernais. Trabalhadores chegavam também, mais rígidos porém paternais, e chegavam com seus olhos vermelhos e cansados, prontos para algumas doses antes de encarar o ritmo das construções ou da segurança privada. Um afirmava, em ode à vida boêmia, como sua mulher não o deixava mais beber durante o dia, o que logo justificava suas escapadas diárias aos botecos. Alguns assentiram com a cabeça, outros me espiavam - era, sem sombra de dúvida, o freqüentador de menor idade dali, e, de qualquer forma, naquele lugar pouco me aventurava para além da cafeína e da nicotina. Meu início de dia, porém, era compartilhado ali, com aquelas vagas idéias, com aqueles acomodados à suas próprias feridas, com aqueles cujas mentes me soavam muito mais interessantes do que aqueles que corriam para métodos ortodoxos ao primeiro menor que seja tropeço.
Aos poucos iniciava conversas, aos poucos não ganhava mais os olhares de surpresa com minha estada ali. Aquelas linhas de vivência que eles expunham com clareza por seus rostos castigados, pela quantidade de cachaça nos copos plásticos.

travessia de outono

Estava lendo o que venho escrevendo nessas últimas semanas. E também o que escrevi, ano passado, no ano anterior. O que sentia. O que ando sentindo. É inevitável traçar paralelos entre o amadurecimento e essas mudanças repentinas de humor, tão repentinas que andam se tornando cansativas. Ando sem muito estímulo, desanimado, escapando de situações sociais pelo esforço que tenho que fazer - convenhamos que é muito mais fácil se isolar. Essa semana, porém, marcou uma diferença das anteriores; alguma mudança está chegando. Vai ver é alegria pelo frio que finalmente chegou com alguma força, ou estou ocupando minha mente com leituras agradáveis, ou ando em companhias agradáveis. Parei de me auto-indagar tanto e estou me sentindo mais relaxado.
Achei estímulo em que geralmente acho estímulo; em caminhadas acompanhado apenas de música, em uma boa leitura, em um copo amargo de café preto, em uma manhã cinzenta, em observar meu cachorro quase dormindo em um degrau das escadas. Não que em algum momento isso não tenha me agradado, mas aos poucos estou voltando a parar mais para tais observações, deixando de tantas preocupações mesmo quando nem sei (porque nem tenho) com o que me preocupar. Devo dizer que alguém ao meu lado faz falta, ainda mais quando nunca fiquei sem em mais de três anos. E faz imensa falta - provoca até certos sintomas abstêmios. Porém, olhando do outro lado do prisma, de algum modo isso vem corrigindo todas aquelas linhas de relacionamentos paralelos que se misturavam e se confundiam. Não que eu me incomodasse tanto assim com elas, mas... é, nunca mantive tanta fé nas pessoas assim para depender delas, de qualquer maneira. Para ser mais sincero, gostava delas, profundamente. Assim como gostava das pessoas com quais criava tais laços.
Não quero esperar mais por algo, porque no fim acabo criando expectativas fora de contexto. Quero me focar no que deveria estar me focando nesse ponto, mesmo não conseguindo como idealizo. Me sinto bem e com uma vontade de sair de casa, mas não para me entregar ao movimento desenfreado, e sim para observar, para conversar, conhecer. Para mudar mais uma vez.


"Que quantidade infinita de energia desperdiçamos a nos proteger contra crises que raramente chegam: uma força capaz de mover montanhas; e no entanto talvez seja justamente esse desperdício, essa espera tortuosa por coisas que nunca acontecem, que prepara o caminho e nos permite aceitar com sinistra serenidade a besta que finalmente conseguimos ver" - Truman Capote, Travessia de Verão

dreamer, nothing but a dreamer

Céu aberto, em uma manhã morna. Uma caminhada, condizente com esse tempo agradável. Ao descer sua rua, ouvindo qualquer música otimista, observou os outros moradores dentro de suas habituais rotinas. Observou a velha senhora que sempre estava ou fumando ou acendendo o cigarro, com seu velho carrinho de compras, trazendo algumas frutas da feira. Viu o homem do frete que já fora publicamente acusado de pedofilia. Viu sua vizinha tentando espiar a casa ao lado, viu os cachorros latindo para o bêbado que fora grande amigo de seu avô alcoólatra. Uma mulher próxima da meia-idade o ultrapassa, com alguma pressa. Sua expressão é de cansaço. Um barulho de ônibus ecoa e ele consegue ouvir qualquer resmungo de raiva que saíra da boca da tal mulher - o som de seu aparelho de música estava relativamente baixo. Em seguida, crianças passam rindo e dividindo uma bala, ele diminui o passo e as observa atentamente, relacionando com algo que ele também viveu e que há tempo passou - para ele e sua juventude, ao menos, parecia muito tempo, mesmo nem sendo tanto assim. Havia algo de mágico em ver crianças rindo e brincando, sendo crianças, sem qualquer malícia ou dúvidas em seus olhos. Outras duas senhoras idosas, discutindo com fervor sobre o novo padre da paróquia, se ele era ou não homossexual - ao menos parecia, segundo a falsa loira da esquerda. A da direita se contentava com olhares sarcásticos. Carros transitavam, a maioria em baixa velocidade - dado o caráter extremamente residencial do lugar -, mas alguns teimavam em fincar seu espírito suburbano com roncos irritantes de motos e carros populares. A mulher com expressão cansada que antes estava próxima à ele agora se encontrava quase na esquina da rua, dando passos largos e decididos - provavelmente decididos a não se deixar atrasar no trabalho. Ainda se ouvia as risadas das crianças, uniformizadas e agora brincando com um cachorro. Alguns adolescentes passaram, em passos irregulares, falando alto e mascando chicletes - a idade desses deveria ser aproximada a dele, e talvez ele até conhecesse de vista, mas não era exatamente integrado socialmente ao lugar onde vivia.
É o incrível de observar, sabe. Tantas pessoas, tantos modos de vida, tantas situações, tantos pensamentos flutuando por aí. Ele estava se perdendo imaginando o que todas aquelas pessoas estavam pensando, como havia sido a noite delas, qual eram suas aflições e conquistas pessoais. É tanta riqueza de detalhes, tanta variedade, é só dar uma rápida olhada, é só parar um pouco e olhar, parece tão fácil, não? E o é, mesmo. Mas poucos o fazem, por algum motivo que soa desconhecido.
Ele caminhou mais um pouco, até um ponto mais alto onde era possível ter uma boa vista da baía. O som já estava consideravelmente mais alto. Tirou seu pequeno caderno de anotações aleatórias e escreveu qualquer coisa que estava sentindo, e começou a concluir um excelente dia que teve ao lado de si próprio... e de todo o resto.

Citação: Supertramp - Dreamer

então traga as discrepâncias...

...que prepararei as bebidas.
Death Cab for Cutie - Army Corps of Architects

Não acredito em destino, nessa idéia absurda que nosso futuro está pré-escrito em qualquer remoto lugar virtual. Na verdade, acredito piamente em poucas coisas. Acredito, com pouco fervor, em algo superior, algo físico que a ciência já explicou em diversas teorias e continua explicando em novas (mesmo poucos percebendo isso). Um tipo de força, não que rege, mas que mantêm um certo equilíbrio. Não um deus absurdo humanizado que impõe uma unidimensional moral ao mesmo tempo que prega amor. É absurdo e fruto de ignorância - e até falta de crença em si mesmo - acreditar nisso, e me recuso.
Mesmo com fiel relutância, nas últimas semanas venho aceitando mais outro tipo de força. Uma que passou a ser incessante busca de todos e é idealizada como algo indestrutível, quando na verdade, mesmo absolutamente necessário, é reciclável e passageiro, e se renova a cada instante. A força de relações humanas. Pessoas. A força de fazer algo não por causa de si, mas por um outro. Seja do "mesmo sangue" ou alguém inteiramente desconhecido. Mudar sua rotina para bater de frente com outra pessoa. A sensação gostosa de se sentir atraído por alguém que se traduz em sorrisos e tira concentração.
A força de acordar ao lado de alguém que você realmente sente que gosta. Acordar com aquela pessoa que tanto te fez feliz dormindo do seu lado, peculiarmente bonita, que acabou adormecendo em seu peito. Vem junto uma vontade de passar o resto do dia ali mesmo, naquela cama, ao lado daquela pessoa, mesmo com um sol nascente ameaçando um dia lindo lá fora. Nunca achei que fosse pensar assim, não desse jeito tão extremo e que trai minha ideologia distante... mas, é a tal força. A mesma força que depois acaba me deixando bambo ao perceber que tal pessoa vai embora, eventualmente. Seja um adeus tempestuoso ou um adeus pacífico no aeroporto, é difícil - ao ponto que nos deixa esquecidos que existe tantas possibilidades, pessoas e momentos que ainda iremos enfrentar e com um gosto ainda melhor, munidos de mais experiência e mais afinco por momentos como esse.
É o tipo de momento que poderia durar muito mais do que durou, mas, só de ter tido algo assim já me deixa bem. E repetido. E não apenas com uma pessoa. As pessoas podem ser únicas e significar diferentes coisas, mas deixar alguém faz você conhecer outra pessoa com quem poderá viver outros momentos tão [ou ainda mais] significativos. Não que isso venha em mente quando os dias passam rapidamente e subtraem o tempo restante.

o batalhão de choque está inquieto

Eu começo esse texto sem a mínima idéia do que escrever. Na verdade, estou com esparsas idéias que diferem bastante uma da outra. Mas me sinto com uma vontade imensa de escrever. Os números me assombram na escola e fora dela algumas pessoas me assombram também. Me senti mal durante o dia inteiro e não sei exatamente porque. Tenho idéia, mas não é exatamente apenas um motivo. Estou desmotivado. Cansei um pouco da rotina, das pessoas, do cenário. Preciso retornar as coisas que realmente me relaxam e me deixam bem, mas meu tempo anda mal-administrado. Pode ser exagero de adolescente metido ao drama, mas como nem drama nem exagero são do meu estilo, recuso essa denominação.
Queria um pouco mais de surpresas positivas, de ficar naquele estado de estar curioso por alguém sem muitas preocupações, sem muito movimento, com um ritmo mais lento. Isso é coisa de alguns anos atrás, quando inexperiência era motor do surpreendente. As coisas mudaram, as pessoas mudaram, os hábitos mudaram. Me vejo fazendo coisas que nunca imaginei que sequer iria experimentar atitude próxima. Continuo íntegro à minha personalidade, mas traços novos surgem no meio do aprendizado e de qualquer indício de experiência que tenha ganho nesses últimos tempos. Não julgo ser muita, é quase nada, mas talvez não condizentes com minha idade. Mas estou meio perdido, na minha rotineira confusão. Ainda me sinto em transição, sem fim previsto. Ao mesmo tempo que quero um tempo sozinho quero pessoas novas, não exatamente um relacionamento sério, mas também não um emaranhado de paralelas relações que no final se mostram complicadas demais para se levar adiante, ainda mais quando promiscuidade de funde com amizade. É meio complicado na verdade, porque no fim restam sentimentos mal resolvidos.
Mas é tudo muito rico em possibilidades para ficar se enterrando em melancolia. No tempo limitado que recebemos, não adiante dividir mágoas quando há tanta coisa ainda por aí. Tudo bem que é inevitável às vezes, mas ainda assim... prefiro mascarar do que despejar drama por aí.

Citação: Bob Dylan - Desolation Row

a linha começa a diluir-se

Talvez não seja tristeza, ou solidão. Vai ver nem é a escola, e, caso tenha seja parcialmente culpada, certamente não pode receber toda a culpa. Mesmo não suportando mais entrar naquele lugar e observar a manhã transcorrendo sempre do mesmo modo, tem algo além disso que me deixa nesse estado tão irrepreensível de desânimo. Não estou nas minhas normais condições de se socializar ou de conversar com um amigo, me sinto mais seguro sozinho e não consigo entender o porque disso e como passei daqueles sentimentos tão agradáveis e otimistas para esse, tão amargo. Vai ver quando eu descobrir já vou ter mudado de humor outra vez.
E a previsão de outro dia de aula amanhã não adianta em nada essa mudança... mas, acho que o que anda faltando é um motivo para acordar, algo animador e que me deixasse ansioso por outra coisa além de chegar no meu quarto. Eu tinha isso, e passou por mim. Talvez só quando isso finalmente reaparecer a tal "vontade" volte também.
Enquanto não vem, prefiro encher minha mente com leituras e conhecimento do que ficar preso à essa melancolia - e não números, e sim letras. O que vou aprender com números, no fim das contas?

Citação: Nine Inch Nails - The Line Begins to Blur

entre eu e você, 1

Começo de tarde. Sol alto, calor ao ponto do insuportável, praia chamando por meio de sua irresistível brisa marítma - e pelo cheiro inconfundível de protetor solar. Você me chama para um banho de mar enquanto coloca seu biquini azul com bolinhas brancas que contrastam perfeitamente com seus olhos azuis e sua pele em transição para algo próximo do bronzeado. Corremos em direção ao mar enquanto as ondas nos pegam sem nenhuma surpresa, com exceção do choque térmico que envolve nossos corpos e a sensação sempre garantida de alívio e ao mesmo tempo intensa que a água salgada trás. O vento parece não incomodar porque nada mais parece incomodar, afinal, está só nós dois e tudo parece conspirar para uma ótima tarde. E realmente foi, como sempre acaba sendo ao seu lado.
E aí que vem na memória todas aquelas noites em companhia sua, nesses últimos três anos.
Minhas estações começaram a ser marcadas não só pelo clima, mas por alguém.
Todas os abusos no álcool com você, todos os filmes idiotas e caricatos, todas as listas e todos os cafés - ah, e nossos pequenos rituais.

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Finalmente pude matar minhas saudades suas hoje. Sério, mesmo com nosso (pequeno, porém, ao menos para mim, risivelmente perceptível) afastamento, você continua sendo a que melhor me entende, e continuo te entendendo do começo ao fim. Continuamos com nossos modos diferentes e mudamos muito - na verdade, o que é mais latente é que mudamos de cenário, e, agora, estamos os dois em panos de fundo diferentes - mas nossa relação pareceu intocável e acho que a noção de nós dois juntos nunca vamos perder. Queria acordar amanhã ao seu lado, mas a rotina impediu esse desejo e a trilha inventada de hoje pôde reparar um pouco a falta que você me fez. E, só porque você manteve seu espírito nesses quase três anos que nós temos juntos, loira... te amo.

enjoy the silence

sentimentos são intensos; palavras são triviais
elas são sem sentido e esquecíveis

O som do mar agitado lutando contra imóveis pedras; o som de árvores cuja mobilidade se perpetua pelo insistente vento; o som de um bando de pássaros inundando o instável céu de novembro. Em contraponto ao som que palavras fazem, esses ruídos parecem infinitamente mais bonitos e, na verdade, sem a menor controvérsia, realmente são.
Algumas vezes palavras são temivelmente necessárias, mas, em boa parte do tal "tempo", elas são perfeitamente dispensáveis. As vezes elas servem com o único propósito de machucar, e, quando são ditas sem qualquer propósito, elas invariavelmente machucam - ou ao menos irritam. O problema é que elas escondem o tão proveitoso silêncio, avançando com um superficial andar sobre ele. Não que o silêncio, em seu mais puro significado, seja possível sem aparatos modernos, mas quando nos silenciamos por certo tempo percebemos melhor a elementariedade e o valor do que nos rodeia. Conseguimos refletir com melhor sonoridade e acabamos que por refinando nosso vocabulário, fazendo melhor escolha de palavras ao falar. Em nossas relações pessoais, o uso abusivo de palavras acaba que por desgastando o sentido de estar ao lado de outra pessoa. Acaba destruindo o prazer de sentar na beira do mar ou no topo de uma montanha ao lado de alguém e experimentar a mistura de frio e rugido que o vento traz e o alento proporcionado pela outra pessoa. Acaba que deturpando o sentimento, por que palavras simplesmente complicam as coisas.
Não é tão difícil achar verdade naquele velho ditado; "uma ação vale mais que mil palavras". Elas podem soar bonito de tempo em tempo, mas moderação é prescrita.

Citações: Depeche Mode - Enjoy the Silence
(aliás, a idéia do texto veio da música)

dogma do mesmo/oposto

Acho um tremendo desperdício quando as pessoas se auto limitam. Quando criam uma idéia pré-concebida tão forte sobre algo que não as deixa experimentar, as vezes, essa idéia nem as deixa pensar e refletir sobre algo que não esteja ao seu imediato alcance ou entendimento. O quebra-cabeça que perdura na mente acaba sendo esquecido com a justificação do desconhecimento, ou seja, a ignorância induzida. E isso se estende à todos; criamos em diversas ocasiões essas opiniões não mutáveis sobre algo, independente do nosso nível de intelectualidade ou qualquer outra coisa. Alguns, claro, criam mais pré-concepções do que outros. Temos medo do que nos é desconhecido, e o que nos é desconhecido pode levar ao preconceito. E preconceito é medo do desconhecido, simple as that.
A sexualidade humana é um desses quebra-cabeças que perdura pela nossa existência. Alguns deixam sua sexualidade ser oprimida pelo convencional e prático, que já estava predestinado para acontecer - casar-se com alguém do sexo oposto, tendo três parceiros sexuais (também do sexo oposto) no máximo ao longo da vida, deixar esse legado conservador para os filhos. Alguns acabam se identificando como homossexuais, firmando relações com pessoas do mesmo sexo e exclusivamente do mesmo sexo, alguns chegam até a levantar bandeiras de orgulho, exclamando pela rua sua orientação sexual, o que não há nenhum problema. Mas, de novo, leva a limitação. Não acredito em exclusividade; acho que a sexualidade e a atração em si - não só sexual - está envolta em um dogma que está se convertendo do relacionamento homem-mulher para o homem-mulher mais casais do mesmo sexo. E ponto final. Ou seja; ou você é heterossexual, ou você é homossexual. E alguns incorporam esses rótulos com efêmera excitação. É um inexorável fato que você, se identificando (ou não) como hetero ou homo, irá sentir atração pelos dois sexos. Porque não é uma questão de ser homem ou mulher. É uma questão de sentir atração. É absolutamente real também que existem tendências e tal indivíduo pode se sentir mais atraído por tal sexo, mas, não se deixe cair na armadilha do rótulo. E esses rótulos não vem apenas da nossa cultura consumista, e sim de todo um desejo humano de se sentir parte de algo; traz satisfação dizer que se é algo, de facto, quando ser esse "algo" traz toda uma implicação social.
Acredito que a tendência à se sentir atraído por um sexo é uma característica pessoal, não o resultado do ambiente em que a pessoa viveu ou qualquer outra bobagem do gênero. É como ter olhos castanhos ou azuis; você os tem e pronto. É claro que ao longo dos anos eles podem mudar um pouco de tonalidade, mas totalmente eles nunca irão se alterar.

quase hipocrisia

Não consigo mais entender muitas coisas, não como eu as fingia entender. Antes tinha em mente que era tudo plano e sem muitos mistérios, que as pessoas fantasiavam e idealizavam tudo demais, não entendia como elas aguentavam tanta ficção. Essa visão unidimensional das coisas está se provando totalmente errada, ao passo de todo o resto. Isso ilustra a percepção de que nunca soube muito bem como lidar com as outras pessoas ao meu redor e seus modos de pensar e agir, e não gosto nem um pouco de sentir grande frustração advinda dessa inabilidade.
Me sinto perdido e confuso, mas talvez me sinta, principalmente, sensível. É, definitivamente; me sinto sensível e propenso à instabilidade. Corroborei minha ideologia pessoal com a vulnerabilidade que me invadiu e [ainda] sinto como se sempre estivesse distante de todos e que nunca vou ter algo real [e que funcione] com alguém. Já me senti assim antes e é difícil transpôr tais sentimentos em ações, primeiro porque há uma barreira imperceptível que me deixa involutariamente retraído e segundo porque as pessoas simplesmente parecem muito complicadoras para um envolvimento. Tal ponto de vista mudou extremamente nos últimos tempos, porém ainda assim não tenho um comportamento condizente com essa mudança. Essa falta de crença na complexibilidade de meus relacionamentos agora se volta contra mim; e não da forma de alguém e sim na forma de pensamentos contraditórios.
Eu estava bem antes, talvez imerso em uma sensação superficial de bem estar, mas... já livre de qualquer peso que adquiri. Porém fui atingido por algo - alguém, dessa vez - inesperadamente, e de um modo inimaginável. Pode ter me tirado desse estado de bem estar porém me fez ver as coisas por um prisma novo e deixou oportunidade para uma mudança de atitude a longo cobrada por algumas pessoas que convivem (ou conviveram) comigo. Não vou - nem quero, de modo algum - mudar minha essência, mas quero ficar próximo das pessoas, e as pessoas com as quais eu tinha verdadeiramente mais proximidade foram afastadas de mim... o que dificulta ainda mais as coisas. Com esses amigos aprendi a, aos poucos, como me aproximar de alguém, e com eles dividi confissões profundas e momentos inesquecíveis. São as coisas pequenas, sabem. Sempre me apoiei um pouco nessas coisas pequenas - um simples toque, o modo que sorriem para mim, o modo como as palavras são ditas. Nunca fui do tipo exagerado - demonstrações grandes de afeto sempre me pareceram muito forçadas.
Depois de um bom tempo recusando a fórmula limitada do compromisso, agora me vejo ansiando por apenas uma pessoa, ao ponto de não conseguir pensar em mais ninguém - no sentido da atração. Estou assustado e instável, quase que inflando uma paranóia sentimental que nunca tive e nunca pensei que teria. Estou bem por isso... pena que implica desestruturar outras coisas que são de suma importância.

mentes retrógradas/saudosismo

A ideologia, a cor, o suor, a mancha, a coragem e, acima de tudo, a vontade deram lugar ao comodismo, ao conformismo, a sombra e ao esconderijo. E deixo o tom saudosista fluir por aqui porque é realmente sobre isso que o texto é mais sobre. Não escrevo tratando tais palavras como algo absoluto, só as digo em um momento cínico de reflexão.
Estou achando tudo e todos muito superficiais - incluindo eu. Tudo muito hipócrita e os erros são identificados errôneamente, quando na verdade nem são erros. O falso moralismo se impregna como um vírus; ou como igrejas evangélicas neopentecostais se impregnam em bairros pobres. Está tudo muito entregue nas mãos, ninguém liga mais pra nada e tudo parece estar fadado ao mecanismo do faz, processa e morre. Está tudo fácil, não há mais gosto pelo trabalho ou pelo lugar onde se vive, os adolescentes se entregam com tudo à facilidade da ignorância - a gigantesca maioria deles (minha faixa etária, na verdade) fala de aparências e... aparências. Ninguém parece mais refletir sobre nada, e também parece que não há nada conspirando para que se faça tais reflexões. Você entra na pré-escola para te preparar para o ensino fundamental, que te dá (ou ao menos deveria) as bases para o ensino médio. No ensino médio você é preparado para o vestibular; passa no vestibular, entra em uma instituição de ensino superior para ser preparado para algum trabalho; trabalha; se aposenta caso consiga driblar todos os percalços envolvendo possibilidades de morte durante a meia-idade e... bom, morre. É só isso mesmo? Parece que todos estão se contentando com o sim. Não estou aqui impondo uma dicotomia revolucionária, só estou realmente abismado após tal reflexão da capacidade de comodismo e hipocrisia dessa população - população historicamente batalhadora que é a dos brasileiros.
Pessoalmente acredito no progresso - acredito no desenvolvimento, na mudança, no futuro. Mas estou confuso com as consequências benéficas de tal progresso... quando ele parece parar por aqui, porque ele não deveria parar. O pior, e é por essa possibilidade que nutro mais aflição, quando o desenvolvimento para na cabeça das pessoas. Quando você seu pensamento nunca evolui, quando sua mente não se expande. Mas não é tempo de pensar nisso, refletir indo tão fundo na psico humana não é algo para minha idade.

o eu irreconhecível

Eu não estou reconhecendo o jeito que venho agindo e o modo que venho pensando nas últimas semanas. É como se houvesse sofrido uma blindagem emocional ao contrário, porque tudo parece estar girando em torno de uma coisa... que pode ser o preceito de um sentimento ou realmente algo real, se bem que isso não importa muito, o que importa é o fato de eu estar absurdamente bobo por alguém. Eu já fiquei assim antes, mas nunca me submeti a tal nível de exposição pessoal - estou muito incomodado porque é a primeira vez que eu gosto de alguém e demonstro isso abertamente. Particularmente não gosto de aparentar fraco e indefeso aos outros, ou até mesmo sentimental, porém está sendo, por algum motivo desconhecido de minha parte, inevitável. Sinto como se eu próprio houvesse ultrapassado o limitrofe dessa exposição, e definitivamente não gosto disso. Mas não há como voltar atrás, e nem sei se, caso fosse possível voltar, mudaria muita coisa. Na verdade é que estou gostando bastante de tudo isso, porque parece autêntico e é preciso mais do que algumas palavras - nunca disse que iria ser fácil com você; você infantil, inexperiente e retraído pessoalmente. Hoje confirmei o que suspeitava, e estou em estado de êxtase interno - contido, claro.
Também sinto que estou em um divisor de águas pessoal. Estou ao ponto de trocar coisas já antigas e seguras na qual sempre manti como meu apoio (não como um estepe; não sou desse tipo) e pelas quais sempre mantive um pé atrás em relacionamentos sérios por alguém instável e bastante diferente de mim. Não estou me entendendo - sempre fui racional e pé no chão, parece que estou abandonando todos meus ideais, ou ao menos um estilo de vida. Me afastei dessas pessoas e só sinto vontade de conversar com eles atualmente, e isso seria algo inimaginável para mim há pouco tempo atrás. Mudança é bom; aceitar riscos de vez em quando é bom. Estou corroborando meu ponto de vista e trocando minha rotina por alguém; minha independência está sofrendo um forte baque e às vezes sinto como se minhas passadas frustrações amorosas estão sendo colocadas em jogo ou mesmo transpostas agora como forma de compensar os erros passados. Não me arrependo de muitas coisas, e mesmo que tivesse apostado as fichas em algum romance no passado, sinto que não teria crescido tanto como cresci mentalmente. Hoje, porém, é um momento diferente e me sinto pronto para encarar algo mais sério - talvez essa coisa de 'quando você encontrar alguém certo vai saber' é pura ladainha, porque a verdade é que às vezes temos que pular de cabeça e abandonar qualquer que seja nossa tradição pessoal.
A verdade é que mudar é importante e estou bem por estar mudando. Mas ainda sim tento me controlar, não quero ser levado pela correnteza de alguém que não seja eu mesmo - não é do meu feitio. E, apesar de estar um pouco irreconhecível para mim mesmo, talvez eu esteja me descobrindo mais - descobrindo novas façanhas internas, novos sentimentos, novas possibilidades. E nunca me senti tão pronto para isso como agora.

conversas permeadas pelo álcool e pela noite

Pelo começo da noite do domingo passado estava na beira do mar conversando com uma amiga, ambos sobre influência do álcool. Conversávamos sobre o futuro, sobre falhas nos relacionamentos e sobre hábitos que havíamos adquirido. Ela é três anos mais velha que eu porém dividimos opiniões parecidas, apesar de personalidades distintas. Estávamos jogando pedras ao mar e tive uma das conversas mais sinceras que tive nos últimos tempos. Ela disse algo interessante com o qual me identifiquei no instante: 'acabo transparecendo minhas falhas em relacionamentos com grosseria e ataques sobre os amigos' - de modo que, ao assentir com identificação, respondi: 'e ninguém consegue entender'. Falamos sobre o mecanismo de defesa pelo qual somos invadidos ao se afastar de pessoas nas quais confiamos devido aos relacionamentos quebrados e problemáticos pelos quais passamos.
Nos auto indagamos sobre nosso futuro, sobre a chegada das responsabilidades, sobre a ideologia que tanto nos permeia e nos conduz na adolescência e vai se esvaindo com a triste realidade do adulto. Machuca pensar que isso se transforma em uma realidade - sempre aquela realidade mitigada - ao passo do envelhecimento. Nossos ideais são traídos pelos fatos que somos obrigados a engolir; nossa paixão pelos nossos arredores vai sendo traída por nós mesmos quando fazemos uma fatal pergunta: vale a pena? (...) É interessante pensar que sempre vale a pena ter idéias próprias, ser independente, recusar ignorância. É interessante também notar que é difícil ter idéias próprias, simplesmente porque idéias próprias não são coletivamente aceitas muito menos encorajadas. É um plano de fundo forjado o nosso, mas aprender a se adequar é essencial, mas talvez não tão essencial quanto ter idéias próprias - pela simples vivência que tiramos disso quando temos.
Também discutimos tais falhas em relacionamentos, onde comentei que meu egocentrismo me levou a se sentir frustrado com a outra pessoa por ela não ter os mesmos pensamentos ou funcionar do mesmo modo que eu funciono. É extremo, eu sei, mas foi assim. Isso misturado com medo de seguir em frente que quebrou todos os relacionamentos sérios que tive - nenhum terminou de um modo agradável, até o momento. Relembro com carinho e sem nenhum ressentimento todos eles, e sei que todos valeram a pena, e felizmente causaram mudanças que teriam de ocorrer em dado momento. E essa frustração às vezes era demasiadamente insuportável e eu tinha que me afastar. É difícil ao extremo para mim lidar intimamente com pessoas diferentes, é por isso que sempre preciso de um tempo sozinho, e não digo isso num sentido dramático, mas apenas porque é natural e necessário esse equilíbrio para mim.
Mas, voltando ao assunto central, entre eu e minha amiga, adoro nossas conversas porque ela é uma das pessoas mais maduras (da minha faixa etária, digo) que já conheci. Essa tal amiga tem opiniões próprias, é inteligente, lê bons livros, ouve boas músicas. E, apesar de estar em um momento da vida diferente do meu, é sempre bem vindo dividir com ela um expresso e um Lucky Strike. É o tipo de momento que valorizo, e certamente esse, onde nós dois estávamos sentados numa pedra no quebra mar, observando a lua e as estrelas e tentando ignorar a terrível música que tocava alto da tal marcha, que me faz ver que é preciso ignorar todas as minhas frustrações que acabo colocando sobre pessoas que adoro, para apenas curtir bons momentos com elas.

Idiota aquele que ousa sonhar...

...em uma sociedade onde pensamentos próprios são ignorados, idealismo é repudiado e uniformidade é alta na hierarquia de uma população conformista.
Ainda assim, me recuso a seguir internamente um resto manipulado e me recuso a abandonar meus ideais, mesmo que isso signifique penar por aí cheio de preocupação. Também me recuso a me deixar levar por um estilo de vida cômodo onde ter uma casa perfeita e filhos saudáveis e estudiosos é o principal objetivo; assim como recuso rotular todos ao meu redor como marcas que variam apenas de procedência ou qualidade. Me recuso ser limitado a um sistema educacional tradicional e feito para se adequar às frustrações da população; me recuso a chamar um país que acabou de instituir a censura como algo válido de democracia.
Prefiro ser considerado um idiota no meio de uma epidemia de ignorância à seguir essa filosofia de fechar os olhos ao observar algo errado... ou pior: de fechar os olhos para qualquer possibilidade de conhecimento.

swimming the same deep water as you is hard

Raramente transpareço, mas nutro enorme preocupação com quem me relaciono, seja qual for a relação. Me sinto muito mal quando percebo que errei com alguém, quando deixei a película que envolve minha bolha pessoal atingir outra pessoa. Porém o que mais me aflinge atinge única e exclusivamente à mim: é a sensação (crescente e consistente) de que sempre estou distante das pessoas ao meu redor; como se nunca houvesse me sentido realmente próximo a uma pessoa. E sempre, nem que seja apenas uma parcela, a culpa é minha. O problema é que eu nunca consigo realmente me entregar para alguém, ou para relacionamentos, e acho tal ação inconcebível e em certo ponto impossível de se executar - no meu caso. Veja bem, não estou requerindo em nenhum nível a atenção das pessoas, até porque atenção de pessoas que me importam eu tenho. Muito menos acho que preciso de mais atenção ou de mais pessoas ao meu redor. O que eu realmente preciso é um ajuste pessoal que bom, como o próprio pessoal implica, eu tenho que realizar - e há bastante tempo. Adiei tal ajuste quando ele era inegavelmente inadiável e prolonguei alguns erros e confusões quais não deveria ter prolongado. Hoje entendo o porquê disso e o porquê de eu ainda estar cometendo tal atraso, e, apesar de pretender fazê-lo, não consigo imaginar exatamente o que tal é. O que sei é que ele é necessário e se não ocorrer vai desembocar em um terrível erro talvez maior do que os já cometidos, mas não há razão para pensar tanto nisso.
Distância; abismo; se sentir longe - em um sentido figurativo. Em meus relacionamentos afetivos essa palavra nunca me ocorreu em tom absurdamente forte, mas ela vem ocorrendo significantemente nos últimos meses em amizades, longas ou curtas. Sempre que estou em um grupo de amigos grande percebo o quão emocionalmente eu sou afastado deles e observador que sou, detecto ações entre alguns deles que não realizo com muita frequencia. Minha capacidade de real (observação: forte; verdadeira) aproximação é restrita e pequena, mas ainda assim maior que minha capacidade de demonstrar sentimentos no cotidiano - não que eu queira aparentar frágil à todo momento e em todas as situações. Mas isso não significa, de modo algum, que eu não queira se aproximar - e também não significa que eu não me sinta mal por não conseguir isso. A maioria das pessoas que me conhece além de algumas conversas quebradas vai provavelmente dizer que eu sou seco, egocêntrico e até frio. Pode ser, em algumas camadas, verdade, mas não é um fato consumado. Estava melhorando quanto à certos pontos de minha introversão pessoal, mas regredi bastante... é que a fragilidade me assustou. Por enquanto transfiro meu potencial pessoal para a escrita, que é minha maior terapia, e está sendo há algum tempo - e vai continuar provavelmente por muito tempo como sendo meu principal meio de exposição pessoal.

Citação: The Cure - The Same Deep Water as You

half awake in a fake empire

Diariamente somos postos frente a frente (e testados) com pressões quanto à prosperidade, aparência, higiene, sentimentos e tudo que possa transparecer ao resto da humanidade. Essa pressão é tanto indireta quanto direta, e, possa dizer você o que quiser, sempre acabamos sucumbindo a ela. Não é preciso alguém falar diretamente, a exposição nos leva a paranóia. É normal e, mais verdade, natural do ser tentar se adequar a sociedade ao seu redor e ser consequentemente aceito pela mesma. Isso nos leva a colocar em nós mesmos diversas máscaras internas que variam do gosto musical a atração física por outra pessoa. Somos postos contra a parede numa base diária e, mesmo sem perceber, dilatamos nossas próprias verdades para dar vazão a tal pressão.
Me parece inconcebível se esconder em certos assuntos, mas é perfeitamente entendível - depois de se entender que tal julgamento é incrustado em cada um de nós. É interessante notar quais caminhos tal comportamento pode levar, e se deixar levar muito pela questão do externo e do que alguém pode eventualmente vir a criticar você te torna uma pessoa infeliz - fingindo que é feliz. O pior é quando você não só se esconde para o resto do mundo, mas se esconde para si mesmo. Aí começa a viver uma mentira que se transforma em uma bola de neve de insegurança e medo. Claro que é sua escolha se esconder, mas é tão claro (ao menos sobre meu ponto de vista, meu julgamento, para usar uma palavra mais correta) que ao admitir certas coisas, você vai ser sentir melhor por algo muito simples que é a conquista de certa liberdade. E, num mundo nada democrático como o nosso, se agarrar a um simples fio de liberdade, que seja, pode fazer muita diferença.
Como Antoine de Saint-Exupery disse, certa vez:
Algo que sei é que uma das liberdades é a liberdade da mente.
Citação: música do The National, Fake Empire.